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Grandes jogos

Luxemburgo x Portugal: o Batismo de Eusébio

2015/11/17 17:25
Texto por João Pedro Silveira
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A estreia de Eusébio da Silva Ferreira com a camisola das quinas seria sempre uma data histórica para ser lembrada anos e anos depois. Agora se essa estreia for contra o Luxemburgo e a seleção nacional perder esse jogo, sofrendo quatro golos, então a data não é só histórica, como absolutamente memorável.

Nesse 8 de Outubro de 1961, o nome que ficou para a história foi o de Ady Schmit, um serralheiro (1) da Cidade do Luxemburgo, que liderou o ataque luxemburguês à baliza de Costa Pereira. O avançado do Fola Esch fez história ao apontar um hattrick, o primeiro e único da sua carreira internacional (2), despertando a atenção do mundo desportivo. 

Um ano depois rumava a França, abraçando o profissionalismo ao serviço do Sochaux, clube ao serviço do qual brilhou, tornando-se num dos maiores goleadores da história do clube do Franco-Condado.

Os 7000 espetadores que lotavam o Stade Municipal du Luxembourg não queriam acreditar no que os seus olhos viam. Pela primeira vez na história da sua seleção, esta conseguia uma vitória num jogo oficial. É preciso recordar que no jogo da primeira volta, os rapazes do Grão-Ducado tinham "levado" um saco cheio em Lisboa, perdendo por 6x0, o que a somar aos 0x9 da derrota com a Inglaterra (em Londres perderam só por 4x1) faziam antever mais uma vitória fácil dos portugueses.

No caminho para o Chile

Uma vitória lusitana deixaria Portugal e Inglaterra empatados na liderança do grupo, quando faltavam apenas 18 dias para o tira-teimas em Wembley, para saber quem se qualificava para o mundial do Chile 1962.

A confiança era grande, a vitória no Luxemburgo era um mero pró-forma, no caminho para a "final" com a Inglaterra, ou assim se pensava.

Fernando Peyroteo, um dos «Cinco Violinos», nome maior do futebol nacional, que recentemente substituíra Armando Ferreira fez uma convocatória consensual, destacando-se o nome de um jovem moçambicano de 19 anos que atuava no Benfica, Eusébio. O ponta-de-lança fazia furor na equipa de Béla Guttmann, que vivia ainda na ressaca da vitória na Taça dos Campeões, uns meses antes.

Ainda em Lisboa, Cavém brincava com a convocatória de Eusébio, lembrando que ao Luxemburgo fora permitido jogar com balizas mais pequenas para melhor se defender dos remates do moçambicano. Eusébio, surpreendido pela declaração do colega perguntou se era verdade, para a gargalhada geral entre a comitiva e os jornalistas.

Polémicas e estreias

Já na capital do Grão-Ducado, Peyroteo escolheu um «onze» que levantou polémica por deixar de fora nomes consagrados como Santana, Fernando Mendes e José Augusto.

Na frente, o treinador fez alinhar um trio "africano" composto por José Águas, Yaúca e Eusébio. No «onze» jogavam quatro campeões europeus (3), e além de Eusébio, estreavam-se mais dois jogadores, os leões Morato e Pérides. 

Do outro lado onze amadores, que nunca tinham vencido um jogo oficial nas qualificações para Campeonatos do Mundo (e Europa).

Schmit resolve

Águas, Yaúca e até Eusébio, que marcara nove golos nos cinco primeiros jogos do Benfica nessa época, eram nomes feitos comparados com Adolphe "Ady" Schmit e os seus companheiros.

O serralheiro, ainda longe de imaginar que um dia brilharia ao serviço do clube da Peugeot, abriu o marcador aos 27 minutos. O jogo chegou empatado ao intervalo e não será difícil imaginar o ambiente na cabine portuguesa...

No segundo tempo, Schmit "incendiou" as bancadas do Municipal com dois golos de rajada (53' e 56') e deixou os portugueses à beira de um ataque de nervos. Na baliza o benfiquista Costa Pereira era o exemplo desse nervosismo, com uma defesa formada só por jogadores do Sporting desconcentrada e um meio-campo encarnado com Coluna e Cavém em dia não, esperava-se que o trio da frente resolvesse, mas como fazê-lo, se a bola não chegava aos seus pés?

Golo histórico

Seria preciso esperar pelo 82.º minuto para se assistir à reação portuguesa, com o primeiro golo da Pantera Negra ao serviço da seleção. 

Só que dois dias depois, Nicholas Hoffmann, médio do Aris Bonnevoie voltou a colocar a vantagem em três golos.

Até ao fim os portugueses tentaram reduzir, olhando com desespero para o avançar galopante dos ponteiros do relógio. O belenense Yaúca fez o 4x2 a um minuto dos 90. Portugal saía vergado à mais humilhante derrota da sua história. Semanas depois, em Wembley, nova derrota (2x0), se bem que esta sem sombra de vergonha. Portugal falhava o mundial e Peyroteo abandonava o comando técnico da seleção.

Para memória futura ficava esse momento emblemático, a passagem de testemunho entre o maior goleador português de todos os tempos e aquele que viria a ser reconhecido como o maior jogador português de todos os tempos. Não deixa de ser curioso que tal momento charneira na história do deporto nacional tenha tido num serralheiro luxemburguês o seu maior herói. 

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(1) Algumas fontes indicam que seria um operário siderúrgico. 
(2) Ao todo Schmit apontaria seis golos ao serviço da seleção nacional luxemburguesa.
(3) Eusébio não jogara durante a campanha europeia do Benfica de 1960/61.

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Motivo:
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U Domingo, 08 Outubro 1961 - 00:00
Municipal du Luxembourg
Kurt Tschenscher
4-2
Ady Schmit 27' 53' 56'
Nicholas Hoffmann 84'
Eusébio 82'
Iaúca 89'
Estádio
(sem foto)
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Medidas-
Inauguração0