história
Clubes

Roma

2013/01/09 12:30
Texto por João Pedro Silveira
l0
E1
Fundação

A.S. Roma nasceu no quente verão de 1927 quando Italo Foschi, um secretário do Partido Fascista, iniciou um processo de fusão de três clubes romanos: o Roman FC, o SS Alba-Audace e o Fortitudo-Pro Roma SGS, com o objetivo de dotar a «Cidade Eterna», e capital do país, de um clube capaz de rivalizar com os potentados futebolísticos do norte de Itália. 

Italo Foschi, fundador e primeiro presidente da AS Roma.
A Lazio seria o único clube a escapar à fusão graças à intervenção do General Vaccaro, director dos laziale, que conseguiu mover as suas influências no regime, para a Lazio não ser incorporada no novo clube romano.

A 7 de julho, no número 16 da Via Forli, nascia a Associazone Sportiva Roma, como documentaram diversos matutinos romanos na manhã seguinte. A data oficial, contudo, é a do dia 22 de julho, que ainda hoje é celebrado como o aniversário da Roma.

O novo clube foi buscar o símbolo à imagem da Loba (1) que amamenta os pequenos Rómulo e Remo, mito fundador e emblema da cidade que lhe dá nome, além de também lhe «roubar» as cores, o vermelho e o amarelo torrado, cores dos antigos estandartes das legiões romanas, onde se podia ler o icónico SPQR. (2)

Primeiros pontapés

Um ano após a fundação, Renato Sacerdoti tomou o lugar de Foschi, tornando-se no primeiro grande líder da Roma, fundamental no crescimento da nova società.

Os primeiros anos foram de afirmação, com o clube a manter-se regularmente no topo da classificação e a internacionalizar-se com a presença na Taça Mitropa em 1931, em que depois de eliminar os checoslovacos do Slavia de Praga, caiu nas meias finais às mãos do poderoso First Vienna FC, que acabaria por vencer a competição só com vitórias. 

A formação da Roma antes de uma partida do campeoanto a 25 de setembro de 1927. Da esquerda para a direita, e de trás para a frente: o Presidente Foschi, o treinador Gambutt, Ziroli, Fasanelli, Bussich, Cappa, Chini, o massagista Angelo Cerretti, o segundo massagista Umberto Mogiani, Ferraris IV, Degni, Rovida, Mattei, Rapetti, Corbyons.
Este período ficou protagonizado pelo surgimento dos primeiros craques da história giallorossa. Heróis e pioneiros como o capitão Attilio Ferraris IV, o guarda-redes Guido Masetti, o médio Fulvio Bernardini ou o primeiro goleador da equipa, terror das balizas adversárias, Rodolfo Volk, autor de 103 golos com a camisola do clube.

A fuga dos argentinos

No verão de 1933, os adeptos confrontaram a direção após a Roma ter vendido o goleador Volk, e crime dos crimes, ter aceitado a transferência do capitão Ferraris para a rival Lazio.

Para controlar os ânimos, o presidente dá três golpes de mercado e contrata os «três mosqueteiros argentinos»: Enrico Guaita, conhecido como o Corsaro Nero, Alessandro Scopelli que passaria mais tarde por Belenenses, Benfica, Porto e Sporting, e ainda Andrea Stagnaro; três oriundi (3) que brilhavam em Itália e os dois primeiros vestiram a mítica maglia azzurra. (4)

Ajudaram o clube a chegar ao quarto e ao quinto lugar e ganharam a naturalização para jogar pela seleção, mas foi então que em 1936, com a declaração de guerra da Itália à Abissínia, os três, com medo de serem convocados, desertaram, fugindo de volta para a Argentina.

Muito se falou da situação, com alguns a lembrar a origem hebraica dos jogadores, e o medo das novas leis anti-semitas que começavam a vigorar também na Itália. Desiludido com toda a questão o presidente Sacerdoti abandonou o cargo, mas para surpresa de todos, a Roma conseguiu conquistar o segundo lugar na época 1935-36.

A guerra e o primeiro Scudetto

Com a Itália a entrar na II Guerra Mundial ao lado da Alemanha, a situação do país começa a deteriorar-se. A Roma também vive momentos difíceis e luta para manter-se entre os grandes. A maioria dos jogadores troca as chuteiras pelas armas e parte para lutar nas campanhas em África, Albânia e Grécia. A Roma fica sem mais de meia equipa e é obrigada a chamar os veteranos que são comandados pelo treinador húngaro Alfred Schaffer, que baseando-se na segurança do portiere Masetti e no faro goleador de Amedeo Amadei, constrói uma equipa, que semana após semana, vai batendo os favoritos. 

Plantel campeão em 1941-42.
Contra todos os prognósticos, a Roma isola-se na liderança e após muita luta, vence a concorrência do Torino e sagra-se campeã italiana em 1941-42, conquistando o seu primeiro Scudetto. Sem tempo para grandes celebrações, os romanos vivem durante os anos seguintes as amarguras do conflito.

Um ano depois, em julho de 1943 os aliados desembarcaram na Sicília e três meses mais tarde, americanos e ingleses desembarcam na Calábria e outras províncias do sul de Itália.

Avançando para norte, acabaram por entrar em Roma a 4 de junho de 1944. Como tanto mais na sociedade italiana, em tempo de guerra, o futebol parou e só seria retomado no fim do conflito.

O declínio e o renascimento

O pós-guerra confirmou um declínio que já se adivinhava antes da conquista do scudetto, com a Roma a ver-se reduzida a lutar para não descer. Após épocas de sofrimento acaba mesmo por cair de divisão em 1951. Regressaria logo na época seguinte, sagrando-se campeão com mais um ponto que o Brescia, mas só nos «gloriosos» anos sessenta voltaria a atingir um estatuto próximo do que hoje lhe reconhecemos.

A Roma festeja a conquista da Taça das Cidades com Feiras de 1960-61, depois de bater o Birmingham City na final a duas mãos. O capitão Losi transporta a taça, o primeiro troféu internacional do clube.
A mudança para o novo estádio, a contratação do uruguaio Ghiggia - autor do golo decisivo no mundial de 1950 - e do brasileiro Dino Costa, foram alimentando a esperança dos adeptos. 

Em 1961 conquistou a Taça das Feiras - o seu primeiro troféu internacional - e três anos depois venceu a Taça de Itália pela primeira vez, pondo fim a um longo jejum de conquistas nacionais.

Até ao final da década o clube viveu com dificuldades, culpa da crise financeira, conseguindo ainda conquistar a sua segunda Taça em 1969, sob a orientação do mago Helenio Herrera e a liderança em campo de Giacomo Losi, o Core de Roma (5), símbolo vivo do clube, que  então «pendurou as botas» após 15 anos em que fez 450 jogos oficiais com a camisola giallorossa, um recorde que só seria batido por outro verdadeiro caso de amor com a Roma: Francesco Totti.

A década triste

A década de setenta foi um período de triste memória para os romanos. Sem títulos, nem campanhas de mérito, os «lobos» sofreram com a ascensão da rival Lazio ao topo do futebol italiano e particularmente com a conquista do Scudetto pelos laziale em 1973-74.

Já antes, com o abandono de Losi e as vendas de Spinosi, Capello e Landini à Juventus, a equipa romanista ficara reduzida a um conjunto de velhas glórias, jovens promessas e contratações obscuras que tinham falhado por onde passavam, provocando uma descrença tal nos adeptos, que a equipa passou a ser depreciativamente denominada como Rometta.  

Pierino Prati e Giancarlo De Sisti em 1974.
Contudo, a década não foi perdida, pois durante esses anos surgiram algumas das mudanças que ajudariam a tornar a Roma naquilo que todos reconhecem. 

A contratação do sueco Nils Liedholm para o banco em 1974 (regressando em 1980) ou a chegada à presidência de Dino Viola em maio de 1979, eram as fundações do sucesso giallorosso nos anos oitenta.

É também desse período (1974-75) a composição do hino «Roma, Roma, Roma» da autoria de Antonello Venditti, e a unificação das claques romanistas na Curva Sud do Stadio Olímpico.

Rissorgimento: Anos oitenta

Em 1980, com Liedholm ao leme, a Roma conquista nova Taça de Itália e na época seguinte, discute taco-a-taco com a Juventus a conquista do campeonato, mas a vitória foge para Turim. Como compensação, reconquista a Taça, conseguindo pela primeira vez ganhar por duas vezes seguida uma competição.

Insatisfeito, Viola vai buscar o internacional brasileiro Paulo Roberto Falcão, naquela que é reconhecida como a melhor contratação de sempre da «Loba». 

Liedholm pode então tomar conta de uma máquina que contava com a segurança de Tancredi, Vierchowod, Nela e Maldera, um meio campo de luta e classe com Di Bartolomei, Falcão, Ancelotti e Prohaska, e um ataque demolidor com Pruzzo e Bruno Conti.

A equipa da Roma campeã em 1982-83 em Subbuteo, numa edição especial pintada à mão comemorativa da conquista do scudetto.
A conquista do título deixou a cidade em estado de total euforia, com os romanistas a festejarem loucamente a conquista do Scudetto, quarenta e um anos depois...

Na época que se seguiu, a Roma chegou à grande final da Taça dos Campeões, disputada no seu estádio, mas perdeu no desempate por grandes penalidades com o gigante Liverpool.

O fim do reinado Viola

 
Viola sentia que precisava mexer no clube e abanar a estrutura, com isso em mente, para o lugar do mestre Liedholm foi buscar outro sueco, Sven-Göran Eriksson, um jovem treinador que fizera sucesso no Gotemburgo e no Benfica

Eriksson conquistou mais uma Taça, mas acabou por sair sem conquistar nem o campeonato, nem um troféu europeu, saindo para dar lugar a Sormani, que também não tem sucesso.

Liedholm regressa, mas já sem sucesso, saindo meses depois. Os treinadores sucediam-se e a Roma limita-se a conquistar a Taça de Itália, primeiro em 1986 e depois em 1991, ano em que também chega à final da Taça UEFA, perdida para o Inter

A era Totti

Batistuta, Montella e Totti, no abraço de celebração da conquista do Scudetto de 2000-01.
É já durante a década de noventa que entra em cena o maior símbolo da história romanista, Francesco Totti, um jovem talento que subiu à primeira equipa em 1993. Seria ele, que juntamente com os brasileiros Aldair e Cafu, o goleador argentino Gabriel Batistuta, e ainda Vincenzo Montella, conquistariam o terceiro Scudetto da história romanista em 2000-01.

A Roma campeã no novo milénio era uma grande equipa orientada pelo não menos grande Fabio Capello, um homem da casa, que em 1999 regressara ao clube que nos anos setenta defendera como jogador, antes de se mudar para a Juventus.

 
 
As presenças constantes no topo da tabela e na Liga dos Campeões, tornaram o prestígio e reconhecimento da Roma, dentro e fora de Itália, ao nível os anos gloriosos de Falcão e companhia. A conquista da Supertaça em 2001 e das Taças em 2007 e 2008, e de mais uma Supertaça, cimentaram a Roma como um dos clubes de topo no país, o único capaz de rivalizar regularmente com a força do tridente Juventus, Milan e Inter

Um stencil de Totti e um escudo do Scudetto, desenhados numa casa de Roma.


-----------------------------------------------------------------

(1) - A Lupa Capitolina, como é conhecida por estar guardada nos Museus Capitolinos, é uma escultura de bronze de data incerta, que representa a lenda de Rómulo e Remo, e da fundação de Roma. 
(2) - Senatus Populesque Romanus - «O senado e o Povo de Roma», denominação oficial da República e do Império Romano.
(3) - Oriundi - Nome porque eram conhecidos em Itália os jogadores sul-americanos, descendentes de emigrantes italianos que foram convocados para jogarem na seleção no mundial de 1934, e que depois se alastrou aos muitos italo-descendentes que jogaram nos clubes italianos nos anos 30 e décadas seguintes.
(4) - Maglia azzurra - A camisola azul que a seleção italiana usa regularmente. 
(5) - O Coração de Roma

Comentários (1)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
Motivo:
Cr
AS ROMA
2013-05-28 16h30m por CroKodile
Boa história pena a Roma não conseguir ganhar mais troféus. Mas quando ganha é sempre uma alegria imensa a transbordar pelos Giallorossi.
Estádio
Stadio Olimpico
Lotação70634
Medidas105x68
Inauguração1937