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Olympique de Marseille

2013/03/14 12:16
Texto por João Pedro Silveira
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«Droit au but!», mais que um mote, tornou-se na definição do Olympique, com uma longa lista de goleadores a fazer jus ao lema. Desde os jogos filmados a preto e branco, Edouard «Doudou» Crut e Jean Boyer, passando por Pepito Alcazar, Josip Skoblar, Héctor Yazalde, Jean-Pierre Papin e Didier Drogba, os avançados marselheses foram sempre direitos ao golo. 

La Cité du Football

O futebol chegou a França pelo norte, com marinheiros ingleses a introduzirem o jogo em Le Havre. Aproximadamente mil quilómetros separam a fria «Porta Oceânica» na ponta oposta do hexágono, da Marselha banhada pelas cálidas águas do mediterrâneo.

Muito mais que as temperaturas marítimas ou os quilómetrosque  separam a Normandia da Provença, a França sempre foi dois países, o «País de Oc» e o «País de Oil», as duas formas de se dizer «sim» na França Medieval, a França do Sul, latina, quente e a França do Norte, fria, céltica. Marselha, a mais velha das cidades francesas, que remonta a sua origem aos gregos, sempre foi uma orgulhosa cabeça do sul, oposição à distante e centralizadora Paris.

Cidade marítima, porto que atraiu gentes do Magrebe, do Levante, da vizinha Itália ou Espanha, nos seus arredores cresceram bairros se guetos de emigrantes, como o emblemático La Castellane, onde nasceria o mais mítico jogador marselhês, que o acaso nunca fez jogar com a camisola do L'OM. Cidade libertária, berço da «Marselhesa», o hino revolucionário francês, dentro das «quatro linhas», o Olympique encarnou esse espírito rebelde marselhês. 

A fundação

Os primeiros estatutos do clube.
René Dufaure de Montmirail, é historicamente reconhecido como o fundador do Olympique de Marseille em 1899, após a fusão do FC Marseille (FCM) - que lega a sua divisa «Droit au but!» -  e o clube de esgrima L'Épée. Em agosto do mesmo ano, a fundação é ratificada em assembleia de sócios. No entanto, segundo André Gascard, antigo jogador, treinador e dirigente do l'OM, o Olympique foi fundado em 1892. Durante anos, todas as cartas e papel timbrado, assim como os cartões de sócio dos membros do clube, eram encabeçadas como « fondé en 1892 » (1) .

Os primeiros estatutos declaravam o Olympique como um clube eclético, votado à prática desportiva, com especial destaque para o futebol. Escolheram o branco como cor do clube por representar a pureza, adotaram o lema do FCM e estabeleceu-se uma quotização mensal, com o valor de três francos. Ciente da importância da quotização, Montmirail e os primeiros dirigentes deixaram bem claro no estatuto a obrigação de levar o símbolo do clube para todo o lado, com orgulho e como evangelização de novos membros:

«Todos os sócios devem possuir o escudo da instituição, cujo porte (na lapela) é obrigatório nos passeios, deslocações, concursos e festas.» (2)

Primeiros anos

Os primeiros tempos foram de dificuldade, com o clube a só conseguir reunir nove jogadores para o primeiro jogo, contra o também marselhês US Phocéenne, que apesar das limitações, foi batido por um claro 4x0.

No ano da fundação, o Olympique disputou o Championat du litoral, com outras equipas da região.
Bensimon, Naegely, Durandy, eram os nomes dos primeiros heróis dos olympiens que disputavam o Campeonato do Litoral, defrontando outras equipas de Marselha como o Phocéenne e o Sporting Club Marseille. Melhor organizado, com mais receitas, rapidamente o Olympique se tornou na equipa principal da cidade e região.

Cidade portuária, Marselha abria a porta aos estrangeiros, muitos deles jogadores de futebol. O l'OM estava atento e foi aceitando na sua equipa diversos jogadores das mais diversas proveniências. Iwens, Wood, Hyde, Browen, Knodler, ou Van Ooy, foram alguns desses ingleses, alemães e holandeses que ajudaram a criar a aura de clube aberto a todos, mesmo que isso significasse não participar em algumas competições que só admitiam clubes que alinhavam apenas com jogadores nascidos em França.

Crescimento e afirmação

O pós-guerra trouxe diversas mudanças ao futebol francês, a velha liga e a USFSA deram lugar à FFF, fundada em Abril de 1919 por Jules Rimet, iniciando um processo que culminaria com a profissionalização no fim da década de 20.

O Marseille conquistou a liga em 1937, com o mítico Jaguaré entre os postes. Aqui na imagem, com equipa que disputou a Taça de França na época seguinte.
O Olympique chegaria à final do Campeonato da USFSA na sua última edição em 1919, perdendo com o Havre AC por 4x1, naquele que foi o seu primeiro grande momento a nível nacional. 

Marino Dallaporta torna-se presidente em 1921, começando uma política da contratação de craques provenientes de outras regiões de França, como a dupla de avançados Crut e Boyer, resgatados em Paris. Vencedores da Taça de França em 1924, 1926 e 1927, os Olympiens viveram a sua primeira época dourada. 

Profissionalismo

Em 1932 o clube abraçou o profissionalismo, integrando a liga profissional que seria conquistada pela primeira vez em 1937. Na baliza da equipa brilhava o brasileiro, Jaguaré de Vasconcelos, a primeira grande estrela estrangeira da era profissional marselhesa. Um grande guarda-redes, mas também polemista, provocador nato, com um carisma capaz de parar «montanhas», fundamental na caminhada para a conquista do Championat de 1937. Lá na frente, a referência era Emmanuel Aznar, natural da Argélia, famoso ficaria pelos nove golos que apontou na vitória sobre o Avignon (20x2) em 1942. 

Com os 44 golos de Skoblar, o Olympique conquistou mais um championat (1971).
Um ano depois, outro magrebino chegava a Marselha, Larbi Ben Barek, a «Pérola Negra», natural de Casablanca, Marrocos (3), sendo a principal vedeta do período pós-guerra, campeão em 1948, que se manteve no clube até 1955.
 
Declínio
 
Os anos cinquenta começaram ao ritmo dos golos de Gunnar Andersson, melhor marcador do campeonato em 1952 e 1953, fundamental no primeiro a evitar a despromoção do L'OM pela primeira vez no seu historial.
 
Durante toda a década o Olympique vai-se afundando na tabela, salvando-se na última jornada em 1958, mas incapaz da redenção em 1959, ano da primeira «descida aos infernos» dos escalões secundários.
 
Sem receitas, o clube não consegue reagir à crise, sendo incapaz de regressar logo ao primeiro escalão. Perde jogadores, perde treinadores e os adeptos começam a virar-lhe as costas. Em 1964/65 arrasta-se pelo 14º da II Division, completamente divorciado dos adeptos, ao ponto de apenas 434 pessoas terem estado presentes no jogo contra o Forbach. 
 
Era Leclerc
 
É contra este estado de coisas que um industrial de Marselha, Marcel Leclerc, chega à liderança do clube em 1965. Reestrutura o clube e recupera-o financeiramente, um ano depois o L'OM estava de volta ao topo. Negoceia com a «mairie» de Marselha o usufruto do Stade Vélodrome, tentando conseguir uma subvenção.
 
Na Luz, uma mão do angolano Vata, deixou o Olympique fora da final da Taça dos Campeões.
Com a recusa das autoridades municipais, Leclerc leva o clube do Vélodrome para o Stade de l'Huveaune, o palco onde o L'OM disputada todos os seus jogos no regresso à elite.
 
Dentro do campo, o Marseille também começa a sonhar alto, com Leclerc a construir uma grande equipa. Em 1969 chega a Taça de França, em 1971 o Championat, graças aos 44 golos do jugoslavo Josip Skoblar - rei dos goleadores em todos os campeonatos da Europa - e à classe do sueco Roger Magnusson.
 
Demissão, crise e regresso
 
Um ano depois, o clube consegue uma histórica «dobradinha», a primeira da sua história. tudo corria bem, mas em Julho de 1972, Marcel Leclerc demite-se das suas funções, depois da acusação de ter retirado dinheiro do clube, que depois utilizou nos seus jornais. Sem o carismático presidente, o L'OM entrou num longo período de jejum e declínio, interrompido pela conquista da Taça em 1976, numa equipa onde brilhava o ex-sportinguista Yazalde e os brasileiros Jairzinho e Paulo César Lima.
 
Época após época, o Olympique ia perdendo competitividade, não estranhando nova descida de divisão. A despromoção à II Division e a crise financeira, levaram o clube a apostar num grupo composto maioritariamente por jovens locais, os minots. Seria esta equipa de miúdos da «cantera», de onde se destacava Éric Di Meco, que garantiu o regresso ao topo em 1984. 
 
Consulado de Tapie
 
A 12 de abril de 1986, Bernard Tapie tornou-se presidente, com o apoio de Gaston Deffere - então Presidente da Câmara. Em pouco tempo pôs em prática o plano para tornar no seu Marseille a melhor equipa de sempre do futebol francês. Karl-Heinz Forster e Alain Giresse foram as suas primeiras contratações.
 
1993: o Olympique de Marseille celebra finalmente a conquista da Champions League.
Durante os anos que se seguiram, Tapie contratou alguns dos nomes mais sonantes do universo futebolístico como Jean-Pierre Papin, Chris Waddle, Klaus Allofs, Enzo Francescoli, Abedi Pelé, Didier Deschamps, Basile Boli, Marcel Desailly, Rudi Völler e Éric Cantona. Para liderar as suas equipas, Tapie também contratou alguns dos nomes mais sonantes do mercado como o alemão Franz Beckenbauer, Gérard Gili e o belga Raymond Goethals. 
 
Entre 1989 e 1992, o Olympique de Marseille conquistou o tetra, batendo toda a concorrência e lançando a sua candidatura às competições Europeias. 
 
Marseille rei da Europa
 
Seguro o domínio do futebol francês, avança à conquista da Europa. Em 1990, chega às meias finais da Taça dos Campeões, caindo em Lisboa, literalmente à mão de Alvalade. Tapie sai de Lisboa irado, «brandindo» ameaças em todas as direcções. Meses depois, mais calmo, com um sorriso de desdém, reconhecia que aprendera em Lisboa a conquistar uma competição europeia...
 
Um ano depois, nova final da Taça dos Campeões. Em Bari, um empate a zero com o Estrela Vermelha, só é «desatado» na lotaria das grandes penalidades. A sorte não quer nada com os olympiens que perdem a sua primeira final para os jugoslavos. Mais dois anos passados e nova final, desta feita o grande AC Milan pela frente. Jogo equilibrado, sem grandes emoções, desempatado antes do intervalo, no seguimento de um canto pelo cabeceamento Boli.
 
Queda em desgraça
 
O Marseille é finalmente campeão europeu e dias depois revalidada - pelo quarto ano consecutivo - o título de campeão gaulês.Tudo corre bem, até que da distante Valenciennes, chegam as núvens que ensombram o céu marselhês. Era novamente o norte a cruzar-se no caminho do Marseille. Tapie defendia-se com a sua arma favorita, atacando sem pudor, com os velhos fantasmas dos «dois países», do norte invejoso do sul, mas a desculpa não pegava. 
 
Didier Drogba foi a referência da última equipa do Olympique a chegar a uma final europeia.
O pequeno clube, situado junto à fronteira belga, acusava que os seus jogadores Jacques Glassmann, Jorge Burruchaga e Christophe Robert foram contactados pelo marselhês Jean-Jacques Eydelie, com o objetivo de deixar o L'OM ganhar o jogo e, ainda mais importante, garantir que nenhum jogador marselhês se lesionava para poder jogar a final da Champions League. Ao mesmo tempo, surgiam acusações de fraude fiscal e fuga de capitais. Em dias, o Marseille passava do céu ao inferno sem direito a passar pelo purgatório...
 
A justiça foi rápida e implacável: o Marseille foi despromovido à Segunda Divisão, perdeu o direito de jogar a Supertaça de França e Champions do ano seguinte, assim como a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. Para cúmulo, viu-lhe retirado também o título de campeão europeu, que seria recuperado anos mais tarde, após uma batalha legal.
 
Renascimento
 
Dois anos depois, o regresso ao topo, com a presidência de Robert Louis-Dreyfus - e o apoio da multinacional alemã Adidas -, os Les Phocéens  conquistaram um tímido 11º lugar, mesmo contando com craques como Fabrizio Ravanelli, Laurent Blanc e Andreas Köpke.
 
Na época de 1998/99 - no rescaldo da França campeã do mundo e para celebrar o centenário, a direção construiu uma equipa de estrelas: Robert Pirès, Florian Maurice e Christophe Dugarry, que ajudaram o L'OM a chegar ao segundo lugar no Championat, atrás do Bordeaux, ao mesmo tempo que garantiam a chegada à final da Taça UEFA, perdida para os italianos do Parma.
 
Cinco
Comentários (1)
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Motivo:
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So em Portugal
2014-03-08 15h01m por Arsenal-RedBulls
So em Portugal é que nao se ve disto:
"A justiça foi rápida e implacável: o Marseille foi despromovido à Segunda Divisão, perdeu o direito de jogar a Supertaça de França e Champions do ano seguinte, assim como a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. "

Enfim, noutro País qualquer o FC Porto ja tinha acabado completamente. . .