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Grandes jogos

RFA x Áustria: o «Milagre de Córdoba»

2012/11/19 18:13
Texto por João Pedro Silveira
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O Milagre de Córdoba, é um dos mais populares jogos da história da rivalidade entre alemães e austríacos. Decorreu a 21 de junho de 1978, em jogo da segunda fase do mundial da Argentina. A RFA, campeã mundial em título, chegara à segunda fase sem maravilhar, enquanto a Áustria se qualificara em primeiro, num grupo com Brasil, Espanha e Suécia. 

Na segunda fase, num grupo em que além de austríacos e alemães, estavam presentes a Holanda e a Itália, os austríacos perderam os dois primeiros encontros, enquanto os alemães empataram os dois. O jogo era meramente simbólico para a Áustria, mas a Alemanha sabia que uma vitória por cinco golos de diferença, podia valer uma presença na final de Buenos Aires, enquanto que uma simples vitória ou um empate, muito certamente garantiam a presença no jogo de atribuição de terceiro e quarto lugar.
 
Berti Vogts, o infeliz autor do autogolo que iniciou a reviravolta austríaca.
O jogo passou à história como «o Milagre de Córdoba», enquanto na Alemanha ainda é recordado como a «Desgraça de Córdoba». Os austríacos não esquecem essa partida, pois apesar de não significar nada para a classificação final do grupo, foi a primeira vitória austríaca desde 1938. Era preciso regressar 40 anos no tempo, à data da anexação da Áustria pela Alemanha nazi, para encontrar a última vitória dos vizinhos do sul. Prohaska, Krankl e companhia, sabiam o que estava em jogo. Os alemães talvez não...
 
Helmut Schön, o líder da equipa que conquistara o mundo quatro anos antes, estava ciente do envelhecimento da equipa, e de alguma falta de atitude dos jogadores, já notada e criticada pela imprensa alemã. Sepp Maier, Berti Vogts, Rolf Rüssmann, Bernard Dietz, Manfred Kaltz, Rainer Bonhof, Erich Beer, Karl-Heinz Rummenigge, Rüdiger Abramczik, Bernd Hölzenbein e Dieter Müller, foi o «onze» escalado pela RFA. O «onze» dos campeões do mundo em título, um «onze» que tinha como objetivo fazer história.
 
E a história começou a correr bem quando Karl-Heinz Rummenigge fez o primeiro golo aos 19 minutos, curiosamente ao mesmo minuto, que no outro campo, a Itália inaugurava o marcador. Ao intervalo, os resultados deixavam tudo em aberto e a RFA estava a quatro golos de Buenos Aires. A história contudo, ainda tinha muitas páginas para serem contadas...
 
 
 
Segunda parte histórica
 
A segunda parte trouxe uma Áustria transfigurada. Entretanto, a Holanda empatava o jogo na outra partida (haveria de vencer por 2x1), aumentado a pressão para os alemães. Aos 59 minutos, Vogts fez um autogolo e empatou a partida. Sete minutos depois, Krankl arrancou um pontapé fulminante da direita e deu a volta ao resultado. A RFA reagiu dois minutos depois, por intermédio de Hölzenbein.
 
O jogo permaneceu tenso, com oportunidades dos dois lados, e um ligeiro pendor germânico. O segundo golo da Holanda e o empate, garantiam que a RFA iria ao menos disputar o jogo de consolação, mas a dois minutos do fim, Krankl veio pela esquerda, tirou os adversários da frente e empurrou com classe a bola para o fundo das redes de Sepp Maier.
 
 
 
 
 
Para a história ficavam os comentários na televisão austríaca (ver segundo vídeo). Era o 2x3! O escândalo em Córdoba. Os austríacos entravam em transe e os alemães não conseguiam acreditar. A festa austríaca foi histórica, ao ponto de ainda hoje, a vitória ser recordada sempre que há um Alemanha x Áustria. Sem motivos para festejarem nos dias que correm, os austríacos ainda celebram o jogo, com o celebrado sentimento de Schadenfreude. (1) 
 
Em 2008, Viena, durante o Campeonato da Europa, adeptos austríacos ainda recordavam o milagre de Córdoba, esperando um novo milagre. A Alemanha venceria por 0x1 e seguiria em frente, enquanto a anfitriã ficava pela primeira fase.
Para os alemães foi uma desgraça, um pesadelo. A RFA ficou fora das medalhas e nas três edições seguintes, conseguiria a presença em três finais, vencendo a última delas. Aliás, desde 1978, a Alemanha apenas por mais duas vezes (1994 e 1998), falhou um lugar entre os quatro primeiros.
 
Já a Áustria, apenas por três vezes se voltou a qualificar para a fase final (1982, 1990 e 1998), nunca mais voltando a conseguir um resultado de monta, ficando constantemente afastada das grandes decisões. 
 
Em Espanha, no mundial seguinte, alemães e austríacos voltaram a enfrentar-se, numa vitória polémica por 1x0 da RFA, num jogo que ficou conhecido como o «Jogo da Vergonha», em que a Áustria já qualificada, deixou-se derrotar num jogo que afastou a Argélia do mundial e qualificou os dois vizinhos. Mas isso são páginas de outra história...
 
 
 
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(1) - Schadenfreude (AFI: [/ˈʃɑː.dənˌfrɔɪ.də/]) é um empréstimo linguístico da língua alemã também usado em outras línguas para designar o sentimento de alegria pelo mal alheio ou satisfação perante o infortúnio de um terceiro. A palavra deriva de schaden (dano, prejuízo) e freude (alegria, prazer). 
 
A palavra deriva de "schaden" (dano, prejuízo) e "freude" (alegria, prazer).
Existe uma distinção entre Schadenfreude discreta, o sentimento íntimo pessoal e Schadenfreude pública, que se expressa abertamente mostrando escárnio, ironia ou sarcásmo perante a desventura sofrida por um terceiro.
Na língua portuguesa o sentimento de satisfação pelo infortúnio de outro expressa-se na exclamação "bem feito
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Motivo:
jogos históricos
U Quarta, 21 Junho 1978 - 17:45
Mario Alberto Kempes
Avraham Klein
3-2
Hans Krankl 66' 87'
Karl-Heinz Rummenigge 19'
Berti Vogts 59' (p.b.)
Bernd Hölzenbein 72'
Estádio
Mario Alberto Kempes
Lotação54388
Medidas105m x 70m
Inauguração1978