história
Grandes jogos

Portugal x Inglaterra: Foram dez a fio...

2013/02/20 15:24
Texto por João Pedro Silveira
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A guerra acabara há menos de dois anos. Graças à neutralidade intransigentemente defendida por Salazar, Portugal fora poupado ao devastador conflito. O povo agradecia ao ditador a paz e o progresso, ou assim queria vender a propaganda oficial do regime, que nunca se fartava de mostrar a «comunhão» entre os portugueses e o Doutor de finanças de Santa Comba Dão.

Para comemorar uma nova era da história nacional, a Inglaterra, velha aliada, e uma das vencedoras da guerra, era a convidada de honra para o primeiro grande jogo de futebol em Portugal depois das armas se terem calado. O novíssimo e monumental Estádio Nacional recebia o encontro. As mais altas esferas do regime encabeçaram a peregrinação até ao Jamor nessa tarde, em busca da honra e da glória, para apoiar onze bravos lusitanos.

No fim do dia, Portugal saía vencido por um histórico e humilhante 0x10, perante o olhar incrédulo do Presidente Carmona. A anedota prevaleceu na memória de todos e o resultado nunca mais foi esquecido: aquilo não fora um desafio, tinham sido... dez a fio.

Esperança e propaganda

A bola começou a rolar e logo no primeiro ataque a Inglaterra colocava-se na frente. Incrédulos, os portugueses aplaudiram o regresso da bola ao centro de jogo, não imaginando, o cortejo de bolas no fundo das redes que se iriam seguir.

Antes da meia hora, já os ingleses venciam por 0x4 e Tavares da Silva manda sair o leão Azevedo para dar lugar a Capela. O guardião leonino não escondeu a vergonha: «O selecionador podia ter dito para eu me magoar e eu, que diabo, magoava-me. Agora ser substituído assim, perante o público...»

Contudo, o problema não estava na baliza, como os restantes seis golos que os ingleses marcaram, confirmariam...

O capitão Cardoso recebe ordem para ser substituído. Tavares da Silva grita irado para dentro do campo: «Cardoso! Magoa-te e sai do campo e diz ao Amaro para tomar conta da equipa!», Cardoso obedece e sai, enquanto ao seu lado, Feliciano jogava com a cabeça partida, com sangue a correr-lhe pela cara abaixo, rezando a todas as alminhas para ser substituído. 

Ao intervalo Portugal perdia por 0x5, golos de Mortensen, Lawton (3) e Finney. Não havia forma de contornar o desastre. A ordem era para cerrar fileiras e tentar impedir o desastre iminente. Ninguém tocou na fruta, Chá e laranjada, os mimos preparados para os atletas se refrescarem durante o intervalo. Tavares da Silva berrava com os seus homens, que cabisbaixos se lamentavam da falta de apoio do público.

Muda aos cinco, acaba aos dez

Como no velho jogo de infância, o Portugal x Inglaterra mudou aos cinco e acabou aos dez. Mortensen (3), Lawton e Stanley Matthews fizeram os cinco golos da segunda parte e Portugal abandonou o relvado, vergado à força dos números. A pior goleada da sua história.

A imprensa foi pródiga em procurar razões (e culpados) para a débâcle, mas seria pela pena do mestre Cândido de Oliveira, que chegaria a mais lúcida observação do «desastre do Jamor»:

«A treinar com o relógio no pulso, ou uma vez por semana, e a jogar ao domingo, depois de uma semana a serrar madeira, a cavar, a carpintejar - ou a jogar hóquei... nunca poderemos igualar, no domínio técnico, ou no domínio da ciência do futebol, aquelas máquinas-de-jogar-futebol que são cem por cento profissionais, como os Lawtons, os Matthews, os Imbellonis, os Martinos, os artistas que o futebol pode criar

A PIDE ao barulho

Se o encontro tinha sido mau para as cores lusitanas, pior seria o pós-jogo. Corria a história que os jogadores tinham pedido um prémio de presença, no valor de 100 escudos, que a Federação negara. Segundo essa mesma versão, os jogadores tinham entrado em campo dispostos a perder, magoados com os dirigentes federativos, que além de terem recusado o prémio, tinham colocado os familiares dos jogadores nas piores cabeceiras do estádio, não obstante lhe terem cobrado preço de bancada central.

À noite, a Federação organizava um banquete no Avenida Palace Hotel, para honrar os atletas e homenagear os ilustres visitantes. Para escândalo e brado geral, os jogadores nacionais recusaram-se a marcar presença. O governo não gostou da "rebeldia" e chamou a PIDE para interrogar todos os jogadores.

Estes explicaram-se, e todos - com a exceção de Jesus Correia, que à noite jogara por Portugal no mundial de Hóquei em Patins que se realizava então em Lisboa - foram castigados. O capitão Álvaro Cardoso foi o mais castigado, considerado como principal responsável, recebeu um ano de castigo. Manuel Capela - seu braço direito - recebeu seis meses e os restantes jogadores receberam dois jogos. Sem castigo ficaram Jesus Correia, Albano, Feliciano, Patalino, Araújo e Pacheco.

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Motivo:
jogos históricos
U Domingo, 25 Maio 1947 - 00:00
Nacional do Jamor
Charles de la Salle
0-10
Tommy Lawton 1' 11' 38' 61'
Stan Mortensen 7' 59' 71' 77'
Tom Finney 21'
Stanley Matthews 85'
Estádio
Nacional do Jamor
Lotação37593
Medidas105x68
Inauguração1944