história
Grandes jogos

Polónia x Brasil: o nascimento da lenda

2014/04/08 16:12
Texto por João Pedro Silveira
l0
E0
Muito tempo passara desde o primeiro jogo do Brasil, uma derrota a 20 de Setembro de 1914, em Buenos Aires às mãos da vizinha e rival Argentina.
Desde então, o Brasil ganhara por duas vezes a Copa América em 1919 e 1922 e marcara presença, tanto no mundial do Uruguai (1930), como no mundial de Itália (1934), onde passou discretamente, ficando logo na primeira fase, em ambos os torneios.
 
No mundial francês, o Brasil era o único representante da América do Sul, dados os boicotes argentinos e uruguaios, em protesto com a FIFA, por esta não ter cumprido com a rotação entre continentes, na realização do torneio.
 
As expectativas brasileiras eram grandes. Ademar Pimenta formara um grupo que finalmente merecia a alcunha de «A Seleção». Na frente brilhava o grande Leônidas da Silva, o «Diamante Negro», apelido que ganhou no mundial, culpa do jornalista francês Raymond Thourmagem, da revista Paris Match, que maravilhado pela habilidade do brasileiro, o comparou à mais brilhante das pedras.
 
Na frente brilhavam também Perácio e Romeu, enquanto mais recuados, Zezé Procópio e o capitão Martim Silveira tanto paravam o jogo adversário, como municiavam o ataque brasileiro. Lá atrás, o campo - e a bola - eram domínios de Domingos da Guia, o Mestre Divino, aquele que os brasileiros ainda hoje reverenciam como o melhor central de todos os tempos. 
 
Domingos era o primeiro de uma escola de zagueiros, que gostava de sair com a bola controlada, driblando adversários e fazendo «tabelinhas» com os colegas. O seu génio residia na sua capacidade de antecipar os lances, ao ponto de Gilberto Freyre o comparar na grandeza a Machado de Assis, e José Lins do Rego dizer dele, que era um “intelectual de calção, meias e chuteiras”.
 
Ademar Pinta prepara a equipa em detalhe, convocando e treinando dois «onzes» distintos; um mais técnico e outro mais fisíco, preparando-se assim para adversários distintos. Um desses adversários que exigia medidas especiais, era a Polónia, semi-finalista dos Jogos Olímpicos de 1936 e que o Brasil encontrou nos oitavos de final, em Estrasburgo, a 5 de Junho de 1938.
 
Os golos cantados 
 
O desporto - e o futebol em particular - começavam a ganhar espaço na Europa, mas também no Brasil. Viviam-se os anos dourados da rádio, e os brasileiros reuniam-se regularmente em volta da telefonia, para ouvir teatro, poesia, música ao vivo. O futebol tinha o seu primeiro grande momento, com o jogo contra os poloneses - como no brasil são conhecidos os polacos - a receber a honra de ser a primeira partida de um mundial de futebol a ser transmitida pelas ondas do éter para os «quatro cantos» do Brasil.
 
Os auriverdes - os brasileiros ainda não jogavam de camisola amarela e calções azuis, nem eram conhecidos por canarinhos - não defraudaram as esperanças dos compatriotas, naquele campo enlameado do La Meinau, em Estrasburgo. 
 
Os azuis - essa era a cor do Brasil nessa tarde histórica - abriram o placard aos 18 minutos, com um golo de Leônidas, mas pouco depois, Batatais derrubou Ernest Wilimowski, o árbitro sueco Eklind - o mesmo da final de 1934 - marcou grande penalidade e Fryedryk Szerfke não perdoou da linha dos onze metros. 
 
O Brasil não acusou o golo e Romeu e Perácio apontaram dois golos que deram uma vantagem confortável ao intervalo (3x1). 
 
Reação polaca e a chuva de golos
 
A chuva começou a cair impiedosamente no segundo tempo e os europeus pareciam mais preparados para jogar naquele terreno. Wilimowski, começou a abrir o livro e a deixar uma marca na história do mundial, apontando dois golos até aos 59 minutos.
 
O Brasil reagiu e Perácio voltou a colocar os sul-americanos na frente aos 71 minutos, a festa já ecoava na bancada, quando Wilimowski apontou um hattrick no último minuto e obrigou a um prolongamento. 
 
Leônidas resolve
 
Pimenta tentou acalmar a equipa, levantando o espírito dos seus jogadores, abatidos pelo golo tardio dos polacos. Quem tinha Leônidas podia acreditar, e o avançado carioca assim demonstrou que era verdade. Pediu a bola e não se escondeu do jogo. Três minutos depois do reatamento e já a estrela do Flamengo fazia balançar as redes polacas. Pouco depois, perde uma bota na lama, mas não falha o remate e faz o 6x4, apontando um hattrick histórico. 
 
Wilimowski não quis ficar atrás e ainda marcou um golo a dois minutos do fim, tornando os instantes finais absolutamente eléctricos. No Brasil suspendia-se a respiração, quando Erwin Nyc via a sua bola - que seria o 6x6 - bater com estrondo na barra. 
 
O Brasil conseguia a sua primeira grande vitória numa fase final de um mundial, e em abono da verdade, o futebol brasileiro, a relação de amor de um povo pela sua seleção, mudava para sempre. O Brasil mostrava ao mundo que tinha chegado para o conquistar. 
Capítulos
Comentários (0)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
Motivo:
jogos históricos
U Domingo, 05 Junho 1938 - 17:30
Stade de la Meinau
Ivan Eklind
6-5
Leônidas 18' 94' 104'
Romeu 25'
Perácio 44' 71'
Fryedryk Szerfke 23' (g.p.)
Ernest Willimowski 53' 59' 89' 118'
Estádio
Stade de la Meinau
Lotação29000
Medidas106x68
Inauguração1933