história
Grandes jogos

Itália x RFA: o Jogo do Século

2012/12/09 16:31
Texto por João Pedro Silveira
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A 17 de junho de 1970, debaixo do sol inclemente da Cidade do México, marcava o relógio 16 horas locais, o mexicano Arturo Yamasaki Maldonado apitava para o começo da meia-final do Campeonato do Mundo entre a Itália e a República Federal da Alemanha. Começava a rolar num jogo tão louco, tão incomum, digno de antologia, de tal maneira marcante, que passou à história como o «Jogo do século».

Caminhos diversos

A Alemanha Ocidental dominara o seu grupo sem problemas, vencendo todos os jogos, antes de eliminar a Inglaterra, campeã do mundo, vingando assim a final de 1966 em Wembley, com um dramático 3x2 após prolongamento. Por sua vez, a Itália começara em ritmo lento, vencendo a Suécia por 1x0, antes de empatar a zero com uruguaios e israelitas. Nos quartos, «despachara» os anfitriões com um expressivo 4x1, chegava bem mais fresca que a R.F.A. ao embate no Estádio Azteca.

As autoridades mexicanas colocaram uma placa no Estádio Azteca, lembrando que ali se disputou o jogo que a FIFA considerou ser o «Jogo do século».
A Itália não atingia uma grande final desde 1938, data em que fora campeã do mundo pela segunda vez. Desde aí acumulara frustrações, a pior de todas, a eliminação precoce, quatro anos antes em Inglaterra, fruto de uma humilhante derrota com a Coreia do Norte.

Os alemães ocidentais, finalistas em 1966, campeões em 1954, ainda não tinham enraizado o hábito de ganhar que ganharam nos anos seguintes, mas os jogadores eram um misto dos finalistas de 1966 e dos que viriam a ser campeões do mundo em Munique, quatro anos mais tarde.

Primeira parte

102.444, segundo números oficiais, sentaram-se nas bancadas do monumental Estádio Azteca, para presenciarem a segunda meia-final do mundial. Um dia antes, o Brasil batera o Uruguai por 3x1 em Guadalajara, numa semifinal totalmente sul-americana. Agora, estavam frente a frente dois colossos europeus, Itália e Alemanha Federal, duas escolas de créditos formados, as duas maiores potências desportivas do futebol no «velho continente»...
 
102.444
A Itália entrou bem em jogo, trocando a bola perante o olhar passivo dos alemães, e ao oitavo minuto, uma bela combinação ofensiva, permitiu a Boninsegna fazer o 1x0 para a Squadra Azzurra. Os teutões reagiram, primeiro por Müller, num remate com o pé esquerdo à meia volta aos 29 minutos, que passou a rasar o poste, e quatro minutos mais tarde, Grabowski, com um tiro de esquerda, a 40 metros da baliza, que fez o italiano Albertosi brilhar.

Segunda parte

A segunda parte começa da mesma forma, com a Itália a criar perigo: Domenghini sobe pela direita e cruza para a cabeça de Riva,obrigando Sepp Maier a uma complicada defesa.

Os alemães respiram fundo, e empurrados pelo público, lançam os seus ataques. Uma, após outra, todas as investidas acabam nas mãos seguras de Albertosi.

Com o passar do tempo, os alemães carregam cada vez mais. Aos 67 minutos, Franz Beckenbauer é derrubado e cai na áerea. Penalty! Gritam os jogadores alemães. O mexicano Yamakasi discorda e marca livre à entrada da área. Os jogadores alemães protestam furiosamente, enquanto Beckenbauer continua caído no chão, cheio de dores, com o seu ombro deslocado. A Alemanha já tinha feito as duas substituições. Beckenbauer não quer sair do jogo, e é ligado, voltando ao jogo com o braço e o ombro imobilizado, numa imagem que ficou imortalizada.

A tensão aumenta, os alemães desesperam a cada nova oportunidade perdida, a cada segundo de jogo que passa... Siegfried vê Rosato salvar uma bola sobre a linha de golo. Seeler e mais tarde Müller, falham clamorosamente o empate. A Itália suspende a respiração, mas aguenta o resultado...

Icónica imagem de Franz Beckenbauer, o Kaiser, com o braço e o ombro ligadosdurante o jogo contra a Itália. Lesionado aos 60 minutos, acabou por jogar mais de uma hora com a clavícula partida, lutando até ao fim pela vitória da sua equipa, num dos mais tocantes exemplos de profissionalismo e amor à camisola da história do futebol.


Tudo parecia decidido, quando na última jogada do desafio, já para além da hora, um cruzamento da esquerda de Grabowski encontra Schnellinger isolado, e este só tem de empurrar para as redes da baliza italiana. O comentador da televisão alemã, Ernst Huberty exclamou «Schnellinger, de entre todos!», por surpresa dele e do resto do mundo, este ser o último golo de Schnellinger com a camisola da Mannschaft em 47 jogos. No último segundo, a Alemanha voltava ao jogo e a Itália sofria um rude golpe. 

O jogo endoidece

Há momentos em que os homens perdem o controlo da situação, em que os deuses de futebol, tomam as rédeas do jogo e resolvem baralhar o destino, divertindo-se com as desventuras dos pobres humanos, as suas reações, frustrações e alegrias. Os que estão no campo a jogar, os que sofrem na bancada, os que vibram à distância pela telefonia ou televisão, todos são tocados pela roda do destino... 

Essa tarde no Estádio Azteca, foi um desses momentos. O golo alemão ao cair do pano, oferecia mais trinta minutos de jogo. Trinta minutos doidos, de reviravoltas e emoções sem par numa meia final de um mundial...

Aos 94 minutos, canto na direita do ataque alemão e Müller a aproveitar para confirmar a reviravolta no resultado. Quatro minutos mais tarde, livre no outro lado do canto, confusão na área, Schnellinger batido e Tarcisio Burgnich a aproveitar para empatar a partida. 

Seis minutos depois, Domenghini sobe pela direita, cruza para Riva, que à entrada da área, com uma receção orientada, tirou Schnellinger da frente e chutou cruzado, fazendo a bola entrar junto ao poste esquerdo da baliza de Maier. 3X2 para Itália! Nova reviravolta consumada, faltava um minuto para o fim da primeira metade do prolongamento.

Mais quinze minutos

A segunda parte começou com as duas equipas deliberadamente ao ataque. Havia sensação de perigo em cada baliza, o golo podia surgir a qualquer momento, e para qualquer um dos lados.

Aos cinco minutos do segundo tempo, Stan Libuda levanta a bola da direita, Uwe Seeler ganha nas alturas e na pequena área Müller desvia para o fundo das redes de Albertosi. 3x3! Os alemães correm para o «Bombardeiro» que apontava o décimo golo na competição, apenas Beckenbauer, exibindo o sofrimento na expressão facial, não acompanha o festejo dos colegas... Os italianos estavam abatidos, Riva era o rosto da deceção. 

A bola vai ao meio campo, os italianos trocam o esférico entre eles, Sisti passa a Facchetti, e o capitão dos azzurri vê Domenghini na esquerda, e faz um passe de vinte metros, o extremo recebe a bola e avança, deixando Schulz para trás e ao entrar na grande área, passa para a marca de penálti, onde Riva, de primeira e com o pé direito, coloca a bola no fundo da baliza de Sepp Maier.

 



 

Passados somente 21 segundos, a Itália voltava a marcar! Os deuses do futebol estavam loucos e nem a frieza alemã conseguia resistir a tanta reviravolta. No púlbico entre a euforia e tristeza, havia a perceção de se estar viver um momento histórico, um jogo inacreditável, de resultado improvável.

A Itália acabou por vencer um jogo épico, mas ficou de tal forma desgastada que acabou sendo preza fácil do maravilhoso Brasil de Pelé, Tostão e Rivelino, perdendo por 4x1.

O sucesso chegaria finalmente em 1982, precisamente contra a mesma República Federal da Alemanha, mas com uma vitória mais fácil por 3x1. A Alemanha por sua vez, chegaria ao título quatro anos depois, e durante vinte anos estaria presente em quatro finais de campeonatos do mundo, só falhando por uma vez a presença no grande jogo, em 1978, no mundial da Argentina.

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Motivo:
jogos históricos
U Quarta, 17 Junho 1970 - 23:00
Estadio Azteca
Arturo Yamasaki
4-3
Roberto Boninsegna 8'
Tarcisio Burgnich 98'
Luigi Riva 104'
Gianni Rivera 111'
Karl-Heinz Schnellinger 90'
Gerd Müller 94' 110'
Estádio
Estadio Azteca
Estadio Azteca
México
Cidade do México
Lotação99250
Medidas105x68
Inauguração1966