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Grandes jogos

Itália x Checoslováquia: Consagração Azul

2014/04/08 10:11
Texto por João Pedro Silveira
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Redressing the balanceRedressing the balance after South America’s finest had dominated the inaugural FIFA World Cup™ in Uruguay, European teams had the upper hand at Italy 1934. All eight quarter-finalists, indeed, hailed from the old continent.
Dois impérios, um destino
 
Tal como Adolf Hitler faria dois anos depois durante os Jogos Olímpicos de Berlim, Benito Mussolini preparou o mundial de 1934 até ao mais ínfimo detalhe, em prol da propaganda do seu regime.

Mostrar a Itália ao mundo, como uma potência de primeira grandeza, um «farol da humanidade» era o objetivo maior, quando os italianos se propuseram a realizar a competição em solo pátrio. A Itália chegar à grande final e vencer, era a peça fundamental do puzzle, e o resultado mínimo que Mussolini considerava tolerável.
 
Il Duce esperava que a final fosse o tão aguardado embate entre a sua Itália e a Alemanha de Hitler. Os dois países atravessavam um período de grande tensão política, com o destino da Áustria como nação independente no centro da polémica. Mussolini olhava com desconfiança para as ideias de anexação da Áustria por parte de Berlim, opondo-se frontalmente aos planos alemães.

A situação só começaria a desanuviar, quatro dias depois da final, quando Hitler visitou a Itália, encontrando-se com Mussolini em Veneza, com vista a negociar a situação austríaca.
 
Seria na «Princesa do Adriático» que os dois regimes que estavam destinados a entender-se, se sentaram pela primeira vez, começando a trilhar o longo caminho que culminaria no Pacto do Aço e na aliança militar que duraria até à capitulação da Itália fascista na Segunda Guerra Mundial. Quatro anos mais tarde, aquando do mundial seguinte que se disputou em França, a Áustria já era uma província do III Reich, tendo os seus jogadores alinhado pela Alemanha, enquanto a Checoslováquia estava a poucos meses de ser desmembrada pela cobiça nazi, sendo parte do país, anexada igualmente ao III Reich. 
 
O caminho

Mas antes de passar à final, a Squadra Azzurra tinha de passar por essa mesma Áustria, que juntamente com a Alemanha e a Checoslováquia, era uma das quatro semifinalistas da prova. A Áustria era uma das grandes potências do futebol europeu, a famosa Wunderteam, com uma equipa superiormente dirigida por Hugo Meisl, onde brilhava Matthias Sindelar, der Papieren (1), estrela maior da seleção danubiana.

Na meia final, os anfitriões suaram para ultrapassar o adversário, com um golo solitário de Guaita e uma arbitragem polémica do sueco Ivan Eklind. A Áustria era o último obstáculo antes dos transalpinos colocarem às mãos na Jules Rimet, assim pensavam os dirigentes italianos. Para os amantes do futebol, o embate austro-italiano era a verdadeira final antecipada. 
 
Com a ausência de uruguaios, argentinos e o boicote inglês, a eliminação prematura do Brasil, e a vitória sobre a combativa Espanha, a eliminação austríaca e alemã na meia-final, deixava o caminho aberto para a glória. Não seriam os combativos checoslovacos a estragar os planos dos anfitriões.
 
Pelo sim pelo não, o sueco Eklind, que já «brilhara» na meia-final em Milão, foi chamado na véspera da final, ao Palácio Venezia, para um jantar com o ditador italiano. Do que se conversou à mesa nessa noite não se sabe, sabe-se é que a arbitragem de Eklind, um admirador confesso do líder italiano, não desagradou nada aos dirigentes italianos.
 
Roma escaldante
 
A cidade do Tibre acordou com um calor abrasador. À hora do «pontapé-de-saída», os termómetros marcavam 40ºC, tirando alguns incautos que se refugiavam nas fontes e jardins da bela capital italiana, Roma era uma cidade deserta, com a maioria dos habitantes a esconder-se da canícula em casa, de ouvidos colados na rádio, atentos a todas as incidências do jogo que decorria no Stadio Nazionale do PNF.
 
Tal como o dia luminoso e radiante, o começo de jogo da equipa italiana também foi brilhante, com futebol de ataque e uma vontade imensa «conquistar o Mundo». A cada nova arrancada dos astros italianos, as bancadas tremiam de antecipação, com os adeptos levantando-se como molas a cada nova oportunidade transalpina.
 
Os minutos passavam e a Squadra Azzurra não furava o bloqueio checoslovaco, por culpa de uma soberba exibição do guarda-redes Frantisek Planicka, que parou tudo o que havia para parar, inclusive dois golos cantados, um da autoria de Giuseppe Meazza, outro de Giovanni Ferrari.
 
Quando finalmente Angelo Schiavio conseguiu fintar Planicka, o remate saiu muito alto, passando para cima da barra para desespero do país inteiro.
 
Segundo tempo
 
A segunda parte começou com a mesma toada, mas aos poucos os italianos perdiam gás e os checoslovacos sacudiam a pressão e levantavam a cabeça, passando a ter a posse de bola por mais tempo.
 
À passagem da hora, Antonin Puc foi «atropelado» por Attili Ferraris, numa ação que muito dificilmente podia ser encarada como legal. Eklind fechou os olhos, mas a Itália dava sinais de estar a ceder à pressão de não ter ainda marcado.
 
Aos 71 minutos, novo ataque checoslovaco, Puc recebe de Stefan Cambal, evita Monzeglio e bate Combi com um remate cruzado, calando os 55 mil adeptos.
 
Apesar dos 40ºC, um frio gelado atravessou as bancadas do Estádio, o impensável estava a acontecer, a Itália perdia com a Checoslováquia, com menos de 20 minutos para jogar. 
 
Vittorio Pozzo gritou para os seus jogadores, era preciso levantar a cabeça e voltar à carga, mas os italianos estavam abatidos. Sobotka aparece isolado e falha um golo feito, perdendo a possibilidade de matar o jogo. Pouco depois, Svoboda desperdiça nova oportunidade. Na bancada, o descontentamento fazia-se ouvir. O sonho estava prestes a ruir.
 
Pressing final
 
Foi então que Raimundo Orsi, um dos oriundi, natural de Buenos Aires, chegou em auxílio da seleção italiana, aproveitando um corte incompleto de Ladislav Zenisek para disparar para o fundo das redes de Planicka, enquanto o estádio respirava finalmente de alivio e explodia de alegria.
 
Faltavam nove minutos para o fim e a Itália, incentivada pelas bancadas, lança-se em procura do golo da vitória. Kare Petru não tem mão na equipa, e a defesa checoslovaca aguenta com dificuldade até ao apito de Eklind.
 
Prolongamento e a Itália redobra ao ataque. Cinco minutos depois do recomeço, Schiavio corresponde na perfeição ao cruzamento de Guaita e a Itália passa para a frente. O estádio parece um vulcão em ebulição, na tribuna, Il Duce é vitoriado por todos, festejando efusivamente o golo.
 
Os checoslovacos parecem rendidos, mas depois do intervalo reorganizam-se e pressionam os italianos. A defesa e o meio-campo transalpinos não dão hipóteses, fechando linhas e travando todas as avançadas dos checoslovacos, por todos os meios possíveis. 
 
Já não há futebol e o sueco fecha os olhos à dureza, a taça já não ia escapar aos anfitriões. A bola corre aos trambulhões de pé para pé, até ao apito final, em que italianos e checoslovacos se deixam cair no relvado, esgotados com 120 minutos debaixo de temperaturas inclementes.
 
Consagração
 
Schiavio confessou mais tarde que estava exausto quando apontou o golo da vitória, ficando deitado no chão depois do remate, ofegante, tentando recuperar o fôlego. Os últimos minutos da partida tinham sido de frenesim e absoluta loucura. «Se as táticas eram pouco rigorosas nesse tempo, imagina-se o prolongamento de uma final de um mundial?». Era o seu último jogo pela nazionale e Schiavio pôde despedir-se em glória.
 
Do outro lado da «barricada» Planicka recorda a receção entusiástica que a comitiva recebeu em Praga. Milhares acorreram à principal estação da cidade, a Praha Hlavní Nádraží. Todos queriam cumprimentar os vice-campeões do Mundo. Durante o trajeto de comboio em solo nacional, os checoslovacos tinham de parar em todas as estações para saudar as centenas ou milhares que se aglomeravam, só para os ver passar. 
 
A festa foi grande e a Checoslováquia só voltaria a uma grande final em 1962 no Chile, para ser novamente vencida, desta feita pelo Brasil. Já por sua vez a Itália, continuaria a sua confirmação como melhor equipa do Mundo, conquistando as Olimpíadas de 1936 e o Mundial de 1938 em França. E mais conquistaria, não fosse a guerra, onde a Itália está longe de estar isenta de culpas...
 
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(1) Homem de papel.
 
Gli Azzurri would not lose another game en route to successfully defending their title at France 1938, underlining their superiority in the meantime by winning the Men’s Olympic Football Tournament Berlin 1936.  after South America’s finest had dominated the inaugural FIFA World Cup™ in Uruguay, European teams had the upper hand at Italy 1934. All eight quarter-finalists, indeed, hailed from the old continent.
 
The backdrop to the tournament was a complex one. Just as Adolf Hitler was to do at the Berlin Olympics two years later, Italy’s dictator Benito Mussolini used the event for propaganda purposes, attempting to extol the virtues of his fascist state. Il Duce’s hopes for an Italy-West Germany Final were thwarted by Czechoslovakia, who beat the Germans to set up a showdown against the host nation at Rome’s Stadio Nazionale del Partito Nazionale Fascista, since renamed the Stadio Flaminio. FIFA.com recreates the events of 10 June 1934, when Gli Azzurri survived a real scare from the Czechs to lift the Trophy for the first time.
 
The stakes
Getting their own back on Italy for refusing to take part in the first FIFA World Cup four years earlier, holders Uruguay decided to stay at home, as did England once again. Brazil sent over a third-string side, although it did feature the talented Leonidas da Silva, while Argentina fielded an amateur squad. In all, 16 teams contested the tournament - 12 of them from Europe - with A Seleção, La Albiceleste, USA and Egypt making up the rest of the field. All the games were knockout matches.
 
The Italy side featured several naturalised South American players, including the Argentinian duo of Luis Monti and Raimundo Orsi. The former was a redoubtable defender; the latter a skilled forward. Together they would provide the foundations for the hosts’ success.
 
La Nazionale thrashed USA 7-1 in the first round but had to work considerably harder to dispose of Spain in the quarter-finals, drawing 1-1 and then edging through 1-0 in the replay. They repeated that scoreline in a high-quality semi-final against Austria’s Wunderteam, which featured the brilliant Matthias Sindelar.
 
Meanwhile, a well-balanced Czechoslovakia outfit spearheaded by the lethal Oldrich Nejedly made solid progress, overcoming Romania 2-1 in the opening round and Switzerland 3-2 in the last eight, before dashing German hopes with a 3-1 win in the semis. Nejedly ended the tournament as leading scorer with five goals.
 
The story
The Final took place in stifling heat, with temperatures soaring above 40ºC. Making light of the conditions, Italy started brightly, pushing Czechoslovakia back into their own half but failing to make a first-half breakthrough. The main reason for that was the superb form of goalkeeper Frantisek Planicka, who pulled off excellent stops to deny Giuseppe Meazza and Giovanni Ferrari. Nevertheless, the Czechs should have fallen behind when Angelo Schiavio found himself in front of an empty net only to shoot over.
 
After pursuing the same high-tempo pressing game at the start of the second half, the hosts began to run out of steam. On the hour mark the advancing Antonin Puc was flattened by Attilio Ferraris’ barely-legal challenge, an indication of Italy’s growing discomfort. Then, with only 19 minutes remaining, the unthinkable happened. Making a rapid recovery, Puc ran on to Stefan Cambal’s pass, shook off Eraldo Monzeglio and beat Giampiero Combi with a cross-shot. The 55,000 crowd greeted the goal with silence.
 
In the minutes that followed Italy continued to totter. Jiri Sobotka had the chance to kill the game off but shot wide from ten yards out, with Frantisek Svoboda then blasting over when well placed. As grumbles of discontent began to echo around the stadium, Orsi came to Italy’s rescue. Breaking down the wing, he sent in a cross that Ladislav Zenisek only half-cleared. Seizing on the loose ball, Orsi fired the equaliser past Planicka to the relief of the home fans.
 
Falling back into defence in the closing minutes, Karel Petru’s men clung on gamely to force extra time. Within five minutes of the restart, however, Italy were in front. Schiavio was the hero of the hour, latching on to Enrique Guaita’s cross to steer the ball home and clinch the Trophy.
 
The star
Making a late tactical switch, Italy coach Vittorio Pozzo pushed Schiavio into the centre-forward position to allow Meazza to drop into a withdrawn role, one in which he felt more comfortable. The change worked to perfection, with the former snaffling Italy’s winner. A one-club man, Schiavio ran out for his hometown Bologna for 16 seasons, scoring 247 goals in 337 matches before retiring in 1938.
 
A bronze-medal winner at the 1928 Olympic Games in Amsterdam, Schiavio was never an undisputed first-choice for his country, though he still managed to rack up 15 goals in 21 appearances between 1925 and 1934. The last of those goals was his winner against Czechoslovakia. He later coached Italy in two different spells: from 1953 to 1956 and from 1957 to 1958.
 
Along with Mario Pizziolo, Schiavio was one of the last surviving members of that FIFA World Cup-winning team. The duo died within days of each other in April 1990, just a few short weeks before the country staged the tournament for the second time in its history.
 
What they said
“Our success is a reward for hard work, moral steadfastness, a spirit of self-sacrifice and the unshakeable desire of a group of men,” Italy coach Vittorio Pozzo.
 
“I was exhausted when I scored the winning goal, so I lay down on the grass for a few moments to get my breath back. It was my last match for the national side and football changed completely after that. At that time nobody knew what tactics were. What mattered were your legs and your heart,” Italy forward Angelo Schiavio.
 
“Even though we lost, we returned home as heroes. We travelled back by train and there were thousands of fans applauding us at every station,” Czechoslovakia goalkeeper Frantisek Planicka.
 
What happened next
Having drawn on their pride and motivation to win the day in 1934, Italy would add individual trickery to their arsenal with the emergence of young talents such as Giovanni Ferrari and Silvio Piola, both of whom would shine in France four years later.
 
Only a few months after being crowned world champions, Italy took on England in a memorable encounter at Highbury. Though the English press had predicted a thumping victory, the home side eventually scraped home 3-2 against a team that played virtually the entire game with ten men after Monti went off injured early on.
 
Gli Azzurri would not lose another game en route to successfully defending their title at France 1938, underlining their superiority in the meantime by winning the Men’s Olympic Football Tournament Berlin 1936. 
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Motivo:
jogos históricos
U Domingo, 10 Junho 1934 - 17:30
Nazionale del PNF
Ivan Eklind
2-1
Raimundo Orsi 81'
Angelo Schiavio 95'
Antonín Puc 71'
Estádio
Nazionale del PNF
Lotação50000
Medidas-
Inauguração1927