história
Grandes jogos

Brasil x Alemanha: Mineiraço

2015/07/06 10:26
Texto por João Pedro Silveira
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Artista Bastos, um dos mais hilariantes personagens a quem Herman José emprestou vida e que parodiava o jornalista Batista Bastos, tinha uma pergunta fetiche com que sempre brindava os seus entrevistados: «... mas ouve lá, onde é que tu estavas no 25 de Abril?». Os pobres entrevistados, eram avaliados em consonância com a resposta dada.

Do outro lado do Atlântico, durante décadas toda a gente sabia o exato local onde estava quando tinha tomado conhecimento da morte de JFK em Dallas. Hoje, a pergunta sacramental em terras do Tio Sam é tentar saber onde se estava quando o primeiro avião embateu contra o World Trade Center.
 
Se Artista Bastos fosse brasileiro, muito provavelmente perguntaria aos seus entrevistados onde estavam no dia do «Mineiraço». Não será difícil imaginar uma versão brasileira do personagem a perguntar com aquele jeito inquisidor: «mas me diga, onde você estava quando o Kroos marcou o quarto gol dos alemães?»

É que na história do futebol há jogos e jogos e muitos deles com a presença da seleção do Brasil, mas em nenhum jogo houve tão pouco Brasil para tanto adversário. Mais que um jogo de futebol, o Mineiraço foi ponto final no reinado do Brasil como potência inquestionável do futebol.
 
Para se encontrar resultado com igual impacto é preciso ir até Novembro de 1953, quando a mágica Hungria de Púskas e companhia, se tornou a primeira seleção não britânica a bater a Inglaterra em sua casa. Era o fim do mito inglês. 

A importância de um resultado

Há jogos que um adepto de futebol jamais esquecerá. São os jogos do seu clube, da sua seleção, aquela final histórica ou uma reviravolta nos últimos minutos. Mas há jogos que perduram na memória coletiva e muito para além da memória dos adeptos futebolísticos. Há jogos que são muito mais que um simples jogo de futebol, jogos de que um dia se vai falar aos netos. 
 
Um desses jogos teve lugar a 8 de Julho de 2014, na cidade brasileira de Belo Horizonte. Esse jogo contava para as meias finais do Campeonato do Mundo que se disputava no Brasil e foi disputado pela equipa da casa e a seleção da Alemanha. Esse era o jogo que dava o acesso à grande final no Maracanã e que permitia ao Brasil expurgar definitivamente o fantasma do «Maracanazo», a triste derrota contra o Uruguai em 1950.
 
©Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Mas o destino não quis nada com o Brasil e os alemães ainda menos. A penúltima etapa para acabar com o fantasma da mais negra derrota do futebol brasileiro tornou-se ela mesma no pior momento da história do futebol brasileiro. Este nunca mais seria o mesmo e certamente que cem anos depois desse jogo, haverá quem fale ainda do dia em que o Brasil sofreu sete golos da Alemanha. 
 
As lágrimas antes do tempo
 
Uma das imagens mais pungentes do jogo do Mineirão é a imagem de uma criança, banhada em lágrimas, que olha incrédula para a debacle que a sua «canarinha» sofre defronte dos seus olhos. A impotência de quem vê os seus heróis serem esmagados e não pode fazer nada para ajuda-los, tocou todos os que presenciaram esse momento.
 
Os golos sucediam-se e o impensável acontecia. O Brasil, o pentacampeão mundial, o «país do futebol», caía com um estrondo inimaginável, reduzido à condição de figurante numa partida em que a Alemanha brilhava como nunca ninguém brilhara num jogo contra o Brasil. A derrota perante os olhos do mundo inteiro, em casa, era a suprema humilhação do futebol brasileiro.
 
Mas para quem tinha acompanhado a presença brasileira na «sua» copa, não eram aquelas lágrimas que tinham marcado a trajetória do «escrete» na prova. As lágrimas que tinham denunciado que este Brasil não era o mesmo de outros tempos, tinham sido derramadas dias antes e pelos próprios jogadores brasileiros, durante o desempate por grandes penalidades, no jogo dos oitavos de final contra o Chile.
 
Nesse dia o Brasil esteve a centímetros de ser eliminado da prova prematuramente. O prolongamento aproximava-se do fim quando Mauricio Pinilla combinou com Alexis Sanchez e disparou à barra com uma força que fez tremer todo o Brasil desde o Maracanã até às profundezas da Amazónia. 
 
O Brasil aguentou e venceu o jogo nas grandes penalidades. Pinilla voltou a falhar e Júlio César parou o remate de Jara. No centro do campo, os jogadores brasileiros desatavam num pranto inconsolável. O país - e o mundo - assistiam incrédulos ao desespero daquela equipa, que sentia que estivera a poucos centímetros de ser eliminado da «copa» logo nos oitavos de final. 
 
Superado o Chile, seguiu-se a Colômbia, uma das revelações do torneio. O Brasil fez a melhor exibição até então e chegou com mérito ao 2x0, antes de sofrer um golo que fez perigar a qualificação. Os últimos minutos foram de tensão, mas o Brasil seguiu em frente. De lamentar eram as ausências de Neymar (lesão) e Thiago Silva (que viu o segundo cartão amarelo).
 
O começo 
 
©Jefferson Bernardes/VIPCOMM
O jogo começou com o período de estudo mútuo. O Brasil parecia estar confiante empurrado pela esmagadora maioria dos 58 mil que lotavam o Mineirão, mas nenhuma equipa parecia ter ascendente sobre a outra. A Alemanha estava interessa em ceder a posse de bola ao Brasil, mantendo-se na expectativa, preparando-se para o contra-golpe mortal. 
 
Perto dos onze minutos, Marcelo cede canto para travar um ataque alemão pelo lado direito. Canto marcado para o meio da área e Thomas Müller sem oposição só teve que encostar para o fundo das redes de Júlio César. Brasil 0, Alemanha 1.

Ao contrário da narrativa bíblica da tomada de Jericó, os alemães não precisavam de dar sete voltas para fazer cair a muralha. Esta caíria por si, de tão podre que estava. Nem sete voltas, nem sete sacerdotes e sete trombetas como no livro de Josué, mas do peso simbólico do número sete a seleção brasileira não se livraria...

«Mas o que se está passando?»
 
O Brasil tenta reagir mas o jogo parece voltar a adormecer. Aos 23 minutos Kroos recebe um passe de Müller e perante a passividade da defesa brasileira espera que este chegue à área para lhe devolver a bola.

O avançado do Bayern deixa em Klose, que isolado perante Júlio César permite a defesa deste, mas tem todo o tempo do mundo para fazer a recarga e marcar o segundo, tornando-se no melhor marcador de sempre em fases finais de Campeonatos do Mundo com 16 golos, mais um que o anterior recordista, o brasileiro Ronaldo.
 
Recorde roubado e jogo em riscos de estar perdido, o Brasil estava em choque e nem imaginava o que ainda iria acontecer.
 
Bola ao meio: golo; bola ao meio: golo!
 
Özil tem a bola, abre na direita em Lahm que cruza, Müller falha e a bola segue até Kroos que dispara com o pé esquerdo para o fundo das redes de Júlio César. 24 minutos, 3x0.
 
Bola ao meio campo, Fernandinho atrapalha-se com ela, Kroos aproveita e rouba o esférico, deixa em Khedira que a devolve de pronto a  Kroos, à sua frente a defesa brasileira dança o bailado dos tristes, Júlio César vai para um lado, depois volta para o outro, à sua frente Dante e Fernandinho repetem o gesto, na mais trágica coreografia que o Brasil já presenciara. 26 minutos, 4x0. 
 
No ecrã, a imagem do miúdo que chora copiosamente e tenta tirar os óculos para parar as lágrimas, mas com ele chora o Brasil inteiro. No banco, Scolari, de pé, parecia anestesiado, incapaz de mexer na equipa, incapaz de perceber o que acontecia, incapaz de encontrar uma saída.
 
©Jefferson Bernardes/VIPCOMM
Mais três minutos e Hummels rouba a bola e avança, joga em Khedira, este deixa em Özil que devolve a Khedira, na transmissão da Globo Galvão Bueno ainda tem tempo de dizer «olha só que absurdo!» e a bola já estava outra vez no fundo das redes de Júlio César. 29 minutos, 0x5. Eis a blitz futebolística em todo o seu esplendor.
 
No campo, os jogadores brasileiros olhavam uns para os outros, o estádio em silêncio - tirando a claque alemã. Cabisbaixos, baixavam os ombros, os braços, procuravam um lugar onde se enfiar. 
 
Júlio César não percebia o que lhe estava acontecer, Marcelo e Maicon eram o espelho de impotência, aquele meio-campo que só a cabeça de Scolari entendia parecia um conjunto de miúdos que nunca tinha feito um treino junto a defrontar uma das melhores equipas do mundo. Na frente havia Hulk e Fred. Lá atrás Dante a viver o seu mais trágico inferno e David Luíz, com uma exibição que na melhor das hipóteses podia ser qualificada como patética. 
 
Assomo de honra? 
 
Faltava um quarto-de-hora para o intervalo quando a Alemanha chegara à «chapa cinco». Esses quinze minutos terão sido dos mais penosos de sempre da história de um mundial. O Brasil respirou fundo quando o mexicano Rodríguez apitou para o intervalo
 
Não se sabe o que Scolari terá dito aos jogadores no balneário, mas o ambiente naquele vestuário terá sido tão festivo como num enterro.
 
©Jefferson Bernardes/VIPCOMM
O «Sargentão» reconheceu a inferioridade brasileira e tirou Hulk e Fernandinho, que seguramente agradeceram não ter que voltar a subir ao relvado. O pobre Fred, vítima da torcida teve de voltar a subir ao campo, ao seu lado vinham Paulinho e Ramires. O Brasil finalmente voltava a ter meio-campo para travar as movimentações do trio Khedira-Schweinsteiger-Kroos. Löw trocava Hummels por Mertesacker, e dizem as más-línguas que pediu calma à equipa, afinal de contas a vitória estava garantida e era preciso descansar, além que o Brasil merecia o seu respeito.
 
Se os alemães tiraram ou não tiraram o pé do acelerador não se sabe, a verdade é que entraram na segunda parte em ritmo de cruzeiro, dando ao Brasil a iniciativa, enquanto Neuer mostrava porque é um dos melhores guarda-redes do Mundo, defendendo todas as oportunidades que o Brasil ia tendo.
 
Schürrle entrou e dez minutos depois aproveitou mais uma jogada de entendimento e fez o sexto. O público do Mineirão aplaudia a Mannschaft, e depois devolvia uma vaia monumental a Fred no momento da sua substituição. A crueldade de culpar o homem que nem sequer tinha tocado na bola...
 
Draxler entrou e a Alemanha jogava sem pressas, dez minutos depois do sexto chegava o sétimo. Novamente Schürrle. Adeptos com as mãos na cabeça, Júlio César deixava-se cair fora do campo, ao lado da baliza, incrédulo com tamanho score

Özil esteve a um palmo de fazer o oitavo e no contra-ataque Óscar marcou o golo de honra. O país que tinha dado o futebol arte ao mundo era dizimado por um futebol infinitamente superior. Para muitos o futebol brasileiro, como o conhecíamos, morreu nesse dia. Para os brasileiros morreu um sonho que começara em 1950. «A copa de todos sonhos» virava pesadelo. A Alemanha seguia para a final onde conquistou o tetra, o Brasil ainda teria que levar outra humilhação e perder 0x3 com a Holanda, no triste jogo da atribuição do terceiro lugar...
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Brasil v Alemanha (Mundial 2014)Brasil v Alemanha (Mundial 2014)Brasil v Alemanha (Mundial 2014)Brasil v Alemanha (Mundial 2014)Brasil v Alemanha (Mundial 2014)Brasil v Alemanha (Mundial 2014)
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Comentários (2)
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Motivo:
lu
Brasil
2015-07-08 17h05m por luispintu
Uma equipa que não está claramente a resultar.

Eu até nem sou muito apologista de treinadores estrangeiros na seleção, mas, acho que neste caso em particular, o Brasil ganharia muito se fosse buscar um bom treinador Europeu, que metesse a equipa a jogar futebol Europeu e não futebol de rua.
Ra
uma vergonha. . .
2015-07-08 16h14m por RafaelReis
e o problema não é dos jogadores mas sim da equipa técnica, até digo mais, esta convocatória foi melhor que a da copa américa. . . inadmissivel deixar hulk e oscar de fora e culpar o fred que pouco ou nada teve de culpa

se fosse preciso irião aplaudir o david luiz que sempre que tocou na bola fez [. . . ] e foram culpar um que nem nela tocou

enquanto a equipa técnica não mudar de ares (vir alguém estrangeiro (se possível europeu)), pouco ou nada mudará. . . infelizmente
jogos históricos
U Terça, 08 Julho 2014 - 21:00
Estádio Governador Magalhães Pinto
Marco Rodríguez
1-7
Oscar 90'
Thomas Müller 11'
Miroslav Klose 23'
Toni Kroos 25' 26'
Sami Khedira 29'
André Schürrle 69' 79'
Estádio
Estádio Governador Magalhães Pinto
Lotação61846
Medidas105x68
Inauguração1965