história
Grandes jogos

Zaire x Jugoslávia: a «degola dos inocentes»

2014/05/19 10:45
Texto por João Pedro Silveira
l0
E0
Este é aquele jogo que será sempre lembrado por ter sido equilibrado até ao apito inicial. Os zairenses, que vinham de uma derrota com a Escócia, em que haviam abandonado o campo de cabeça erguida, enfrentaram os jugoslavos e foram literalmente atropelados pela indiferença dos europeus, que sem piedade, apontaram golo atrás de golo, até ao 9x0 final. 

Sonhos de um ditador

O Zaire em 1974 era liderado por Mobuto Sese Seko, ditador sem escrúpulos, um dos mais sanguinários déspotas que o continente africano conheceu, o que não é de somenos, tendo em conta o triste historial de opressão e ditaduras que África conheceu e ainda hoje conhece.

Como todos os ditadores, Mobuto Sese Seko quis transformar o seu Zaire - ex Congo Belga, atual República Democrática do Congo - num farol desportivo do «continente negro». 

Les Leópards, os leopardos, petit nom dos zairenses, conseguiram a qualificação para o mundial em Dezembro de 1973 depois de derrotarem Marrocos por 3x0, o que permitiu ao governo com sede em Kinshasa, ter tempo para preparar a participação no Campeonato do Mundo, dotando a federação local com todos os meios necessários para que a campanha da equipa nacional do Zaire no mundial alemão fosse um sucesso desportivo.
 
O Zaire eliminara Marrocos que quatro anos antes fora o representante africano no Campeonato do Mundo, tornando-se a terceira equipa do continente depois dos marroquinos e do Egito (1934) a chegar à fase final do maior evento futebolístico do Mundo, sendo inclusive a primeira equipa subsaariana a subir ao grande palco, abrindo assim o caminho para as futuras prestações de seleções tão icónicas como os Camarões em 1982 e 1990, a Nigéria em 1994 e 1998, o Senegal de 2002, o Gana de 2010...
 
A caminho da Alemanha
 
Feliz com os seus jogadores, Mobuto ofereceu a cada jogador um carro e uma casa, além de prometer cobri-los com riquezas e honrarias no regresso da Alemanha.
 
A despedida de Kinshasa foi apoteótica, primeiro a comitiva desdobrou-se em festas e receções oficiais, depois a festa saiu para a rua, quando as multidões acompanharam a equipa no caminho para o aeroporto, lotando as bermas das estradas, agitando bandeirinhas. A festa terminou com a despedida oficial com direito a protocolo de estado em plena pista do aeroporto.

Poucos pareciam lembrar-se que o Zaire estava incluído num grupo que contava com Escócia, Jugoslávia e o Campeão do Mundo em título Brasil... Talvez isso explique muito do que se seguiu em terras teutónicas. 
 
A 14 de Junho, a estreia, com a Escócia no Westfalenstadion em Dortmund. A derrota por 0x2 não comprometia e deixava em aberto o caminho, adiando a decisão para a segunda partida, marcada para a Terça-Feira seguinte, dia 18, no Parkstadion em Gelsenkirchen, contra a Jugoslávia.
 
A débâcle
 
Os jugoslavos eram um adversário temível, que no jogo de abertura tinham obrigado o campeão em título Brasil a ceder um empate a zero. Por sua vez, o Zaire contava com um jugoslavo no banco que tinha um conhecimento sólido sobre o adversário: Blagoja Vidinic, um «mago» de leste que já levara Marrocos quatro anos antes ao mundial do México.
 
Na véspera do jogo, os zairenses foram informados que não iriam receber pela participação no mundial, o que era o oposto do que fora acordado em Kinshasa. Houve protesto e ameaça de greve, mas os agentes dos serviços secretos e da polícia que acompanhavam a equipa intimidaram os jogadores que acabaram por aceder a entrar em campo, onde o Zaire sofreria uma das mais humilhantes derrotas da história dos mundiais...
 
Com meia hora de jogo o Zaire já perdia por 0x5 e o resultado ameaçava atingir proporções épicas. Sem saber como agir, os jugoslavos abrandaram e limitaram-se a marcar só mais quatro golos até ao fim do jogo, fechando a goleada com um novo recorde (até então) num mundial de nove golos sem resposta. O recorde seria batido oito anos mais tarde em Espanha, quando a Hungria esmagou El Salvador por 10x1. 
 
Mal o jogo terminou, as autoridades zairenses viraram-se para Vidinic, culpando-o pela vergonhosa prestação da equipa, enquanto os jogadores eram ameaçados que seriam impedidos de regressar ao país se fossem novamente humilhados pelo Brasil.
 


A cena 

Quatro dias passados, no Waldstadion, em Frankfurt  Brasil e Zaire jogavam a honra. Se os africanos prometiam cerrar fileiras e evitar nova humilhação, os sul americanos tentavam limpar a pálida imagem deixada nos dois dois primeiros jogos, onde haviam empatado a zero com escoceses e jugoslavos.

Durante noventa minutos, brasileiros e zairenses cumpriram o seu papel, sem grande brilho, diga-se. Os golos surgiram naturalmente e os «canarinhos» venceram por 3x0. O Brasil x Zaire não ficou para a história pelo futebol exibido, mas por um número de comédia aquando da marcação de um livre a favor do «Escrete», um jogador zairense (Ilunga Mwepu) saiu a correr da barreira quando ouviu o apito de Nicolae Rainea e chutou a bola. Uma imagem para a história dos mundiais, que faz justiça à triste participação da primeira equipa subsaariana num mundial, vencida nos três jogos e com um patético score de 0x14.

 



Capítulos
Comentários (0)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
Motivo:
jogos históricos
U Terça, 18 Junho 1974 - 19:30
Parkstadion
Omar Delgado
9-0
Dusan Bajevic 8' 30' 81'
Dragan Dzajic 14'
Ivica Surjak 18'
Josip Katalinski 22'
Vladislav Bogicevic 35'
Branko Oblak 61'
Ilija Petkovic 65'
Estádio
Parkstadion
Parkstadion
Alemanha
Gelsenkirchen
Lotação62109
Medidas-
Inauguração1973