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Madrid

2015/09/25 13:08
Texto por João Pedro Silveira
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Madrid é uma cidade que convida a sentar-se e aprecia-la demoradamente. Seja com uma caña gelada ao fim de um dia de sol, um tinto de verano bem fresco numa tarde de verão ou um chocolate bem quente numa manhã fria de inverno.

Ver as montras na Gran Vía ou ir ver o pôr-do-sol ao Retiro, caminhar por entre o casco velho e parar para umas tapas no Mercado de San Miguel, passar o dia no «Triângulo de Ouro da Arte» em volta do Passeio do Prado, subir a Castellana e acabar o dia acompanhado por mais oitenta mil nas bancadas do Santiago Bérnabeu. Madrid é um sem fim de emoções e sensações, arte, gastronomia, cultura, desporto, moda... a capital do país vizinho tem tudo, convidando a uma visita sem pressas.

Um pouco de história

Apesar de haver indícios do povoamento humano desde a pré-história, as primeiras referências históricas a Madrid só começam no século IX, quando Maomé I de Córdova (852-886) mandou erguer uma fortaleza com torre no local onde hoje se encontra o Palácio Real, para melhor vigiar as cercanias da Serra de Guadarrama. Junto do forte, para sul da muralha estendia-se a população: Mayrit. 

Seria a Mayrit muçulmana que lentamente foi crescendo para se tornar num povoamento de certa importância que após 200 anos de ocupação árabe seria conquistada por Afonso VI de Leão e Castela - avô de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal - a 25 de Maio de 1085. Elevada a vila por decreto real em 1123, a povoação trocaria de mãos até se tornar definitivamente castelhana depois da vitória cristã na batalha de Navas de Tolosa (1212). 

Cidade de museus, Madrid tem no extraordinário Museu do Prado um dos seus cartões de visita. ©Getty / Pablo Blazquez Dominguez
Com o fim da ameaça muçulmana a cidade pode naturalmente crescer e expandir-se e passou a ser residência de caça dos reis de Castela, que se divertiam a caçar a enorme população de ursos que vivia na zona. 

Se há uma certeza sobre a Madrid medieval, é a grande concentração de ursos na região, ao ponto do animal se tornar no símbolo da cidade, juntamente com o medronheiro, uma planta também muito comum na zona.

Centro da Península, capital de um Império

Com a chegada dos Habsburgo ao poder, Madrid foi ganhando importância e contava então cerca de 30 mil habitantes. Carlos I deu o estatuto de Imperial à cidade, mesmo depois desta ter-se revoltado.

O seu filho Filipe II mudou as cortes de Valhadolid para a cidade e instalou-se no velho castelo. Mais central, a cidade tornava-se capital do Reino, que entretanto se tornara ele mesmo um Império global. Durante a união dinástica com Portugal, Madrid era o centro do maior império que jamais existira.

No Escorial, onde se recolheu mais tarde, Filipe II (I em Portugal) lembrava que o sol nunca se punha nos seus domínios.

O estatuto atraiu à cidade alguns dos nomes mais sonantes do país. A Espanha vivia o seu "siglo d'oro" e Madrid era o centro desse período dourado, com nomes como Lope de Vega, Diego Velázquez, Francisco de Quevedo e Miguel de Cervantes. 

Surgem novos palácios, igrejas, a cidade embeleza-se, moldando-se à sua nova dimensão imperial. A pequena Mayrit era apenas uma distante memória, agora Madrid era a capital dos poderosos Habsburgos. Muito do que conhecemos e admiramos, como a maravilhosa Plaza Mayor, são fruto desse tempo. Mas o Império foi perdendo fulgor e a Espanha perdeu o seu papel na dianteira para ingleses e franceses. 

A renovação dos Bourbon 

Com o fim da Dinastia dos Áustria chegaram os Bourbons com Filipe V, neto de Luís XIV de França. A nova dinastia sacudiu algum do marasmo cultural em que o país vivia e Madrid foi palco desse renascimento. As modas francesas chegaram a Madrid e a cidade mimetizou Paris.

O Parque do Retiro, e o seu lago, são um destino favorito de fim-de-semana para os madrilenos. ©Getty / Pablo Blazquez Dominguez
Nascia a cidade moderna. Filipe V começou a construção do Palácio Real, mas seria o seu filho Carlos III que o terminou. O novo monarca dedicou particular atenção à capital, dedicando-se à sua reconstrução e embelezamento. Limpando-lhe as fachadas, ajardinando avenidas e baldios, a cidade tornou-se mais limpa. Os madrilenos agradecidos, consideravam Carlos III o melhor Alcaide que a cidade alguma vez tivera. 

Durante o seu reinado, nasceram alguns dos mais belos monumentos da cidade como o Prado e a Porta de Alcalá, construiu-se o Hospital Geral - hoje Museu Rainha Sofia, o Jardim Botânico, o Observatório Astronómico, entre outras instituições científicas e académicas.

A cidade abria-se para lá das portas das muralhas. As portas transformavam-se em praças, os caminhos tornavam-se estradas. As ruas alargavam-se, a cidade não parava de crescer.

A era dos Bourbon seria interrompida durante a ocupação napoleónica, tão maravilhosamente retratada por Francisco Goya, nas maravilhosas obras que podem ser observadas no Museu do Prado. 

Modernidade, uma nova cidade

A cidade como conhecemos é essencialmente fruto dos últimos duzentos anos. A industrialização transformou radicalmente o rosto de Madrid. A chegada do Comboio (1851) e a Estação da Atocha mudaram a capital. A Estação tornou-se a principal porta de entrada dos trabalhadores que chegavam para tentar a sua sorte na grande cidade.

Madrid ganhava avenidas largas, boulevards à francesa. As Portas do Sol tornavam-se o que são hoje, uma praça central, coração da cidade. Bem perto rasgava-se uma artéria para ligar a parte noroeste da cidade ao centro, a monumental Gran Vía, que liga a não menos monumental Praça de Espanha à Calle de Alcalá, a dois passos da Cibeles. Este é o Centro da Madrid que reconhecemos e que chegou aos nossos dias depois de um tumultuoso século XX.

O centro

É neste eixo central que vive o coração da cidade. Se pudermos desenhar retas a unir a Plaza de España a Noroeste com a Plaza Colon a Nordeste, e unir estes dois pontos respetivamente com a Porta de Toledo a Sudoeste e a Estação de Atocha a Sudeste, formamos um quadrado que é o centro da cidade.

Começando pelo Palácio Real, afinal foi aí onde tudo começou, o visitante encontra a extraordinária Catedral de la Almudena, palco de bodas e batizados reais. A dois passos está também a Plaza Oriente e o magnífico Teatro Real, casa da ópera espanhola. Continuando a subir em direção à Plaza de España o visitante pode ainda admirar os Jardins de Sabatini e a fachada traseira do Palácio Real.

Em destaque o Metropolis, número 1 da Gran Vía. Ao fundo, o extraordinário edifício da Telefónica. ©Getty / Pablo Blazquez Dominguez
Antes de admirar a arquitetura na Plaza de España convém seguir até ao jardim na Calle Ferraz e visitar o maravilhoso templo egípcio de Debod. Voltando à Plaza de Espanã é impossível não parar e tirar uma foto à icónica estátua da imortal figura do cavaleiro andante Dom Quixote e do seu fiel escudeiro, Sancho Pança, duas das mais célebres personagens da literatura universal, da autoria de Miguel de Cervantes.

A Plaza de España é uma excelente forma de entrar na Gran Vía e iniciar a descida da mais famosa artéria madrilena. A Gran Vía faz jus ao seu nome. Com as suas lojas imponentes, os teatros e cinemas, os prédios altos, elaborados - como o maravilhoso Metropolis -  com decorações e estilos que tornam a visita à Gran Vía uma autêntica aula de arquitetura e escultura. De paragem obrigatória, se bem que a alguma distância para se ter a verdadeira perspetiva do conjunto, é o edifício da Telefónica, que durante décadas ostentou o título de edifício mais alto de Espanha

Enquanto desce a Gran Vía também pode cortar na Plaza Callao e daí continuar até à Puerta del Sol, onde se encontra o quilómetro zero de Espanha, a estátua equestre de Carlos III, a fonte e o fronteiro edifício dos correios, ou ainda a famosa estátua do urso e do abrunheiro e o não menos icónico reclame luminoso do Tio Pepe

A Plaza Mayor e o caminho para a Porta de Toledo

Verdadeiramente central e de visita obrigatória é a maravilhosa Plaza Mayor onde no centro se encontra a estátua equestre de Filipe III. A dois passos encontrará o Mercado de San Miguel, meca dos foodies, local de visita obrigatória aos apreciadores de boa comida e bebida, e aos apaixonados da arte das tapas. 

Voltando à Plaza Mayor pode tomar a direção da Porta de Toledo para chegar à Latina. Quando encontrar o teatro, vire à direita passe o Mercado da Cevada e desça para este bairro que desde o começo do novo século se reconverteu numa das zonas prediletas dos madrilenos. 

Tire tempo para visitar a Igreja de Santo André e passear pelas praças vizinhas, podendo depois descansar com uma caña bem gelada numa das muitas esplanadas que vai encontrar na Plaza Paja. 

Passeie pelo bairro em direção à Real Basílica de São Francisco o Grande e depois regresse pela esquerda até à Calle Toledo para chegar à famosa Porta que ficava no velho caminho para Toledo. Se continuar a descer a Calle Toledo irá encontrar o Paseo de los Pinos e poderá passear nas duas margens do Manzanares atravessando tanto a Ponte de Toledo como a Pasarela de la Arganzuela. 

Passeando pela Arganzuela acompanhando o Manzanares pela direita irá encontrar a casa do Atlético Madrid, o famoso Estádio Vicente Calderón.

Lavapiés e o Prado

Conhecer Madrid é conhecer os seus bairros. Se a Latina é o local eleito para os madrilenos irem beber uma cerveja, Lavapiés será o bairro onde se deve rumar para experimentar a verdadeira diversidade cultural da cidade.

O antigo bairro judeu é desde sempre um local de acolhimento para os novos moradores da cidade. Hoje, ao lado das velhas tabernas e casas de tapas, convivem os diversos restaurantes indianos, os döner kebabs, as lojas de eletrodomésticos, lojas de conveniência e as locadoras de internet. 

Procissão durantes as Festas da Virgen da la Paloma de Madrid, no icónico Bairro da Latina. ©Getty / Denis Doyle
Descendo a Calle Argumosa, o coração do bairro, encontrará o Museu Rainha Sofia, um dos três grandes museus da cidade, com obras de Gris, Dali, Miró e Picasso. Continuando até à Atocha, uma das mais belas estações da Europa, chegará ao Passeio do Prado onde pode visitar o Jardim Botânico e o famoso Museu do Prado, com uma extraordinária coleção de pinturas e esculturas que o elevam ao estatuto de um dos mais importantes museus do Mundo.

Se no Rainha Sofia é obrigatório visitar o Guernica de Picasso, no Prado todos os visitantes querem ver «As Meninas» de Velázquez, mas também «O Jardim das Delícias Terrenas» de Hieronymus Bosch, ou o conjunto de obras de Francisco Goya, onde se incluem as Majas, Saturno comendo o filho ou o Três de Maio. 

Subindo o Passeio do Prado e passando pela Cibeles siga em direção ao último vértice do «Triângulo dourado da Arte» o imperdível Museu Thyssen-Bornemiza, para perder horas admirando os trabalhos de van Gogh, El Greco, Jan van Eyck, Courbet, Renoir, Pollock, Mondrian e tantos outros...

Voltando ao Passeio dos Recoletos, passe pela Cibeles em direção à Porta de Alcalá, aí encontrará o extraordinário Parque do Retiro, local de visita obrigatória. Em particular o seu lago e o monumento a Afonso XII, onde os locais adoram assistir ao pôr-do-sol.

Chueca e Malasaña

No fim dos anos 80 o bairro da Chueca converteu-se no centro da comunidade gay madrilena. Durante as décadas seguintes o barrio que até aí fora uma zona decadente da cidade, em sobressalto com o tráfico de droga e a pequena criminalidade, regenerou-se e começou a atrair um novo comércio que veio encher as lojas vazias e os espaços devolutos.

Em que outra parte de Madrid pode ver um casal de idosos passear o seu cãozinho e conviver com um casal gay na mesma esplanada da Praça Central? A Chueca é esse bairro que combina o mais trendy do universo gay com as mais antigas tradições da cidade, não se admire que lado a lado esteja um café gourmet que só serve doces importados da Suécia com uma mercearia onde o dono ainda conhece pelo nome todos os clientes da sua loja. Barbearias com um quadro com a Última Ceia e um enorme poster do Real Madrid podem estar paredes meias com uma sauna anunciada com um vistoso arco-íris com a maior naturalidade do Mundo. 

E se de dia o bairro está cheio de vida, então à noite é que a Chueca se transforma numa festa que enche calles e mais calles, atraindo milhares de visitantes, mas não tantos como a vizinha Malasaña o bairro estrategicamente encravado entre a Chueca e zona universitária.

Esse meio-caminho entre a comunidade gay e a comunidade estudantil valeu à Malasaña tornar-se o centro da vida noturna da cidade. Foi aí, nos anos 70, após o fim do franquismo, que surgiu a famosa Movida Madrileña. Boémios, artistas, jovens, todos acorriam noite sim, noite sim, ao centro da cultura alternativa em Madrid.

A Catedral de La Almudena e a Plaza de la Armería, que se encontra entre a Catedral e o Palácio Real. ©Getty / Quim Llenas
Esta é a Madrid que inspirou os filmes de Almodóvar, o próprio presença regular em alguns desses "altares" do hedonismo como eram o caso do El Penta ou La Vía Láctea. Bares, discotecas, tertúlias, os infames botellons, quem queria viver a cidade intensamente tinha passar pelo bairro que mesmo depois de ver o resto da cidade abraçar a Movida, se manteve sempre como uma referência na noite madrilena. 

Arte urbana, cafés gourmet, velhas tascas com tapas no balcão, esplanadas montadas com as velhas mesas e cadeiras das casas dos avós, bicicletas por todo o lado e a mais recente loja trendy da cidade, é assim a Malaseña do novo milénio, tomada pelos hipsters, que mesmo assim não conseguiram afugentar todos os velhos vizinhos que ainda gostam de se encontrar ao fim da tarde numa das esquinas do bairro para cortar na casaca da chica que vive no terceiro esquerdo...

Rumo ao Passeo de la Castellana

Seguindo caminho pela Plaza del 2 de Mayo, o Tribunal e o Museu de História de Madrid chegará à Plaza de Santa Bárbara, onde a Chueca se encontra Chamberí, dois bairros tão distintos que parecem saídos de cidades diferentes.

Onde esses dois bairros se encontram fica Alonso Martínez, uma das zonas mais in da capital espanhola. Na agradável Plaza de Santa Bárbara poderá almoçar numa tarde de sol numa das suas inúmeras esplanadas. Por perto encontra cafés e restaurantes, lojas e galerias que merecem que repita a visita.

Da Plaza Alonso Martínez desça até à Plaza Colón que como o nome indica celebra o descobridor das Américas. 

A dois passos tem o Museu Arqueológico Nacional, para a esquerda começa o Paseo de la Castellana, a maior e mais importante avenida da cidade. A partir daqui o adepto madridista dirá que todos os caminhos vão dar a Chamartín, o bairro onde se ergue o estádio do Real Madrid.

Subindo a Castellana pode encontrar museus, institutos superiores e até a embaixada dos Estados Unidos da América. Da Praça de Colombo ao estádio são aproximadamente três quilómetros, se quiser continuar a subir até às torres Kio, a Puerta da Europa, terá de caminhar mais 1,7 km.

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