19:45
Duarte Monteiro
2017/02/25 10:42
E3
O "19:45" é um espaço de opinião do jornalista do zerozero Duarte Monteiro. À flor da relva e do coração, com os filtros puros do futebol.

Imagine um alpinista, equipado a rigor e preparado para escalar a mais alta das montanhas. Imagine esse alpinista a subir, metro após metro, ponto de referência após ponto de referência. E imagine esse alpinista a fazê-lo com segurança, talento e conhecimento. Agora imagine que esse alpinista talentoso está a um passo de alcançar o cume da montanha... e bloqueia, incapaz de terminar aquele último passo. 

Agora imagine Rafa Silva. É a mesma história, só que aplicada a um campo de futebol. O avançado português do Benfica é um jogador talentoso, dotado de qualidades que o fazem importante numa equipa. Ainda que no Cartão de Cidadão conste que tem apenas 23 anos, a verdade é que aquela barba farta e as mudanças de velocidade fazem-no parecer um jogador feito. Mas não é.

E não o é por uma única razão: a fobia a balizas. É aflitivo ver Rafa num raio de cinco metros daquele retângulo que, afinal, é o objetivo máximo de um jogo de futebol. O talento, as qualidades técnicas e a confiança que denota nos primeiros dois terços do campo ruem que nem um castelo de cartas frágil e desequilibrado quando pela frente se ergue a parede das decisões. É aflitivo. 

Peguemos como ponto de partida o encontro frente ao Desportivo de Chaves, porque o golo do campeão europeu é, ironicamente, um excelente exemplo daquilo que aqui se escreve. Depois de já ter evitado um par de vezes o contacto com a baliza, preferindo sempre, sempre e sempre assistir um colega (e muitas vezes de forma defeituosa), Rafa lá marcou, aos 50 minutos de um jogo que estava empatado.

Mas a forma como o fez, tímida, cheia de receios e sem segurança absolutamente nenhuma perante uma baliza escancarada, levou a que quase falhasse um golo cantado. António Filipe, guardião do Desportivo de Chaves, ainda evitou que o remate de Rafa tocasse nas redes, numa ironia fina sobre esta fobia: até quando marca a bola não toca nas redes; é aflitivo. 

Resta a Rafa, de apenas 23 anos, combater o problema, porque o é, sem ponta de dúvidas. Não é preciso, para já, fazer soar os alarmes, ainda que com a temporada a correr para o fim não se registe qualquer sinal de melhoria nesse capítulo. Mas se o internacional português quiser subir aquele último patamar de qualidade vai ter de começar a acertar mais vezes na baliza. E em «casa» até tem bons exemplos para ir observando.



Comentários (3)
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Motivo:
Ta
resumindo
2017-02-26 11h25m por Tallent_Genius
Comentário até quando marca a bola não toca nas redes; é aflitivo.
Fr
Rafa
2017-02-25 19h11m por Fragha
Também concordo e penso que se trata de uma opinião mais ou menos unânime.
Ontem, com tudo para fazer um golo certo e com assertividade, mostrou mais uma vez esta "fobia". Pode ser apenas um acumular de situações anómalas, mas a verdade é que se trata de algo que eu já tinha notado noutras épocas (vide o Sporting-Braga da época passada e o jogo da supertaça), o que confirma tratar-se de algo mais profundo.
Seja como for, só com a confiança da equipa técnica e dos colegas lá...ler comentário completo »
da
Completamente de acordo.
2017-02-25 12h37m por danyftw6
Tenho que concordar, o Rafa é um jogador único em Portugal, tem toda a habilidade, desequilibra como muito poucos. . mas quando chegar ao momento da decisão tem que ser mais confiante, para mim o Rui Vitória é quem mais o pode ajudar, a confiança do treinador em conjunto com os treinos podem ajudar a combater a fobia do Rafa.
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